Um Portugal, que seja possível sonhar e viver

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"O sonho comanda a vida” é uma frase profundamente enraizada na identidade portuguesa. Mas, para muitos, o verdadeiro sonho tornou-se hoje mais simples e mais urgente. Viver num país onde seja possível nascer, trabalhar, formar família e construir um futuro com estabilidade.

Portugal enfrenta um desafio que não é apenas económico, é social e estrutural. Milhares de portugueses, sobretudo jovens, não procuram riqueza imediata, nem promessas abstratas. Procuram condições concretas: um emprego estável, salários que permitam viver com dignidade, acesso à habitação e tempo para conciliar trabalho e vida familiar. Procuram, no fundo, um país onde o esforço compense.

A conciliação entre vida profissional e familiar tornou-se um dos maiores testes à qualidade do nosso modelo económico. Horários prolongados, baixos rendimentos relativos, instabilidade laboral e custos elevados de habitação criam um cenário em que ter filhos, cuidar da família ou simplesmente planear o futuro se transforma num exercício de incerteza. Quando o trabalho ocupa tudo e a segurança falta, o sonho começa a adiar-se e, muitas vezes, a emigrar.

Os números mostram essa realidade: jovens qualificados continuam a procurar no estrangeiro oportunidades que não encontram em Portugal. Não o fazem por falta de ligação ao país, mas porque procuram condições que lhes permitam viver com autonomia, estabilidade e perspetiva de crescimento. Cada saída representa talento perdido, investimento desperdiçado e um sinal claro de que há obstáculos estruturais por resolver.

Falar de crescimento económico sem falar de qualidade de vida é ignorar o essencial. Um país competitivo não se mede apenas pelo PIB, mede-se pela capacidade de reter talento, apoiar famílias, valorizar o trabalho e garantir que quem nasce em Portugal pode aqui construir o seu projeto de vida.

Isso implica políticas que promovam salários mais competitivos, estabilidade fiscal, acesso real à habitação e serviços públicos capazes de apoiar famílias e empresas. Implica também uma cultura económica que valorize a produtividade, a inovação e a responsabilidade, criando condições para que o crescimento se traduza em bem-estar real.

O sonho português nunca foi apenas individual. Sempre foi coletivo: um país onde cada geração acredita que pode viver melhor do que a anterior. Quando essa expectativa se perde, instala-se o desalento. Quando é recuperada, renasce a confiança.

Hoje, mais do que prometer sonhos, importa criar condições para que eles sejam possíveis. Um Portugal onde seja natural nascer, onde seja viável trabalhar e onde seja seguro construir família não é uma utopia. É um objetivo político, económico e social.

Porque, no fim, o desenvolvimento de um país mede-se por algo simples: se os seus cidadãos podem sonhar e se encontram no seu próprio País as condições para transformar esse sonho em vida e em realidade.

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