Um ministro sem noção, um primeiro-ministro sem coragem

Mariana Leitão

Presidente da Iniciativa Liberal

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A lista de processos, irregularidades, abuso de poder, já vai longa, e não vale a pena repetir. O que interessa agora é o ministro que acumula esse historial ter decidido que a sua missão é combater o populismo, e o primeiro-ministro, que o mantém no cargo, ter decidido fingir que isso faz sentido.

Luís Neves escolheu uma cerimónia da PSP para dizer aos portugueses que fica. Uma cerimónia da polícia, fardada, institucional, paga com dinheiro público, transformada em palco para defesa pessoal. Isso já diz tudo sobre o que ele entende por serviço do Estado.

E o que disse ali foi grave. Falou em combater o populismo quando é ele próprio quem o alimenta, permitindo que cada semana que passa no cargo sirva de prova a quem já diz que as instituições protegem os seus. Usou o uniforme alheio como escudo para o seu problema pessoal.

Um ministro com juízo e noção distingue o momento de honrar quem serve o Estado do momento de falar de si próprio. Neves não distinguiu, porque já não lhe interessa distinguir. Interessa-lhe ficar.

Cada dia que continua no cargo é um dia a degradar as instituições que devia servir. A Polícia Judiciária carrega o peso de ter sido dirigida por um homem sob, pelo menos, cinco inquéritos. O Ministério da Administração Interna passa a mensagem de que o cargo protege quem o ocupa, não o contrário. E o próprio conceito de confiança política esvazia-se quando se aplica a alguém que já não tem nenhuma para dar.

Um ministro da Administração Interna que instrumentaliza uma cerimónia oficial para gritar um desafio à oposição não está em condições de liderar quem ali estava fardado. Perdeu a noção do que é o cargo. Acha que é dele.

Mas isto já não é sobre Luís Neves. É sobre Luís Montenegro, que assistiu a tudo isto e não disse nada.

Há quem diga que o primeiro-ministro está apenas a respeitar o processo, à espera de uma acusação formal antes de agir. Não é isso que está em causa. Manter confiança política em alguém não depende de sentença nenhuma, depende de saber se esse alguém ainda serve o cargo que ocupa. Montenegro não precisa de tribunal para perceber que este ministro já perdeu toda a autoridade e confiança para exercer o cargo que ocupa.

E, mesmo assim, Montenegro escolhe, todos os dias, não o demitir. Cada semana sem essa decisão não é a continuação de uma decisão antiga. É uma decisão nova, tomada de propósito. O primeiro-ministro tem o poder de acabar com isto amanhã de manhã. E amanhã de manhã, decide outra vez que não.

Tinha o argumento fácil à mão, exigir a demissão, devolver ao país a sensação de que há uma linha que não se atravessa. Preferiu ficar ao lado de um ministro que usa as mesmas armas do populismo que diz combater. E cada dia que essa escolha continua, quem está a decidir o preço que a credibilidade das instituições vai pagar já não é Neves. É Montenegro.

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