O comboio de tempestades dos Exames Nacionais que se abateu sobre o ministro da Educação, Fernando Alexandre, merece uma reflexão, além da justificação técnica e da culpabilização política.Os factos que deram origem à polémica das últimas semanas são conhecidos: o Ministério da Educação decidiu pegar num projeto-piloto de classificação digital de exames, feito no ano passado em ambiente controlado – apenas os exames na disciplina de Filosofia – e escalá-lo para todo o universo das provas. Ou seja, passou de um “teste de sistema” com 20 mil provas para mais de 300 mil exames este ano.Resultado: professores forçados a lidar com bloqueios diários, mensagens de manutenção constantes, desaparecimento de dados introduzidos ou erros que inviabilizaram a avaliação de itens. Mas também páginas em branco, folhas de continuação em falta e falhas graves na exportação de ficheiros. Tudo isto forçou a reclassificação tardia de milhares de exames, o adiamento da conclusão da avaliação e, por isso mesmo, das datas de afixação das pautas com as notas.."Não é defensável criticar a indecisão ou o mero calculismo político, que imobiliza – por taticismo ou cobardia – as políticas disruptivas e, ao mesmo tempo, querer punir excessivamente quem quer fazer reformas.”.A cereja no topo do bolo? A 1.ª fase de candidaturas ao Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior arrancou hoje sem que todos os alunos tenham as suas notas corretamente afixadas. Podemos até considerar que é uma pequena percentagem de alunos, mas é um enorme cartaz de néon com a palavra “FALHANÇO” na estrada que nos trouxe até aqui.Quer Fernando Alexandre tenha sido – como deu a entender – torpedeado por alguns diretores de escolas, por uma camada alargada de professores descontentes ou pelos técnicos do ministério, que lhe garantiram que tudo iria funcionar na perfeição, politicamente terá de ser ele a assumir a responsabilidade. Noutras polémicas por que passou nos Governos de Luís Montenegro, reconheçamo-lo aqui, o ministro tem sido pródigo em fazê-lo.Na consideração meramente política, Fernando Alexandre poderia ter percebido o pouco que tinha a ganhar se tudo corresse sem problemas, contra o imenso que arriscaria caso algo corresse mal. Saiu muito pior do que se esperava e isso abriu as portas do arsenal à oposição, que agora – sob o olhar do Presidente António José Seguro – tem bombardeado o ministro da Educação e o da Administração Interna.A sucessão de casos até já fez sair da gaveta a expressão “Governo de trapalhadas”, a mesma com que Montenegro brindou António Costa em finais de 2022.. Ainda assim, Fernando Alexandre tem algo a seu favor nesta história. Mesmo que esta polémica o faça cair, ao menos foi a tentar modernizar ou trazer para o século XXI um sistema de classificação arcaico e que mobilizava incontáveis recursos. Não se trata aqui do prosaico “mal que vem por bem”. Simplesmente não é defensável criticar a indecisão ou o mero calculismo político que tantas vezes imobiliza – por taticismo ou cobardia – as políticas disruptivas e, ao mesmo tempo, querer punir excessivamente quem quis fazer avançar, ainda que não completamente pronta, uma reforma que visa, no futuro, um bem maior para o sistema educativo.Politicamente, Fernando Alexandre até pode ter garantido a sua queda, mas se, eventualmente, isso acontecer deverá sentir algum conforto em saber que foi uma vítima necessária na mais do que urgente reforma do processo de classificação dos Exames Nacionais. Uma reforma que se impunha, que se impõe, e cujo “falhanço”, ainda que forçado já este ano pelo ministro, pode ter tornado irreversível a sua aplicação, com as correções devidas, nos anos letivos de 2026/2027 e futuros.