Foi no ano 2000, Timor-Leste estava na ordem do dia. Num heroico C-130, ocorreu a viagem do Presidente Jorge Sampaio aos nossos antípodas. Era um tempo inolvidável de paixões fortes, depois de muitos terem descrido sobre a possibilidade da independência timorense. O conhecimento público do Massacre de Santa Cruz mudara tudo. Abria-se o tempo da esperança, depois da completa incerteza.Foi uma viagem muito atribulada. Acompanhei o Presidente da República como ministro da Educação e foi com as escolas, os professores, os estudantes, o país profundo que contactámos. Mas houve um companheiro especial que esteve sempre presente, nessa gesta heroica que nunca esquecerei. A voz de Luís Represas incendiava os corações, mobilizava cada pequena comunidade, cada centelha em prol da liberdade.Há dias, recordei com João Gil, o autor do extraordinário Ai, Timor!, esse magnetismo que fez dessa canção um verdadeiro hino transnacional. (“Calam-se as vozes / Dos teus Avós. / Se outros calam / Cantemos nós”).Onde quer que chegássemos, todos em uníssono simbolizavam com palavras o querer e a esperança. Hoje, à distância do tempo, sentimos a vertigem da memória como algo único que não viveremos mais.Luís Represas era um colega antigo do velho Pedro Nunes, amigo nosso e de meus irmãos mais novos. Houve, por isso, entre nós sempre uma relação boa e próxima. Foi assim até agora, sempre que nos reencontrámos, mas aquela imersão total timorense ficou como um encontro memorável e imperdível. Para além das visitas às escolas e do entusiasmo, houve muitos episódios humanos tocantes, como o daquelas professoras do Ensino Básico, a quem levámos os óculos de que precisavam para ler e ensinar.Passara uma geração sem a experiência do ensino das primeiras letras português. Havia dificuldades e falta de tudo e recebemos, no ministério, uma encomenda de óculos, segundo as necessidades habituais. Foi emocionante a distribuição desses preciosos instrumentos. Várias professoras, com os olhos marejados de lágrimas, agradeciam repetidamente – e formulavam uma perguntava incrédula: Como adivinháramos os óculos de que necessitavam?O entusiasmo era transbordante. O Luís emocionava-se ao ver como um grande abraço era capaz de construir a História. Num movimento incessante não era apenas aquela canção que se tornava um poderoso instrumento de mobilização, mas a sensibilidade do artista e da sua obra riquíssima.Mais do que o autor e intérprete, estávamos perante alguém a quem a língua portuguesa tudo ficava a dever. Não esqueçamos que a experiência dos Trovante era o reencontro da cultura atual com as origens trovadorescas do galaico-português, com a sua plasticidade e capacidade inovadora. Desde a Balada das Sete Saias até à 125 Azul – a dizer: “Talvez um dia me encontre” –, passando pelo génio de Florbela no Amar Assim Perdidamente, pode dizer-se que a geração de Luís Represas compreendeu muito bem a perenidade de uma língua viva até aos confins do Pacífico.“Há sempre alguém que nos diz, tem cuidado. / Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco. / Há sempre alguém que nos faz falta. / Ah! …Saudade.” É dessa sementeira de esperança que precisamos para delinear o futuro como autêntica partilha de vontades e de riscos, que só a amizade pode conter.Um abraço, querido Luís.