Um elétrico chamado vergonha

Alexandra Leitão

Vereadora na Câmara Municipal de Lisboa eleita pelo PS

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No dia 3 de setembro assinalou-se o primeiro aniversário do fatídico acidente ocorrido no Elevador da Glória, no qual 16 pessoas perderam a vida e 23 pessoas ficaram feridas. Vidas interrompidas, famílias destruídas e futuros desfeitos numa curta viagem, num transporte público numa cidade capital europeia. Uma tragédia que convocou, num primeiro momento, bombeiros, equipas do INEM, proteção civil, forças de segurança, profissionais de saúde e outras entidades que asseguraram as operações de socorro com dedicação exemplar. Uma tragédia que nos consternou a todos e que nos uniu no momento de dor.

Na altura, escrevi num outro jornal que este foi “um dia trágico que Lisboa não esquecerá”, mas infelizmente as autoridades competentes esqueceram.

Esqueceram porque, um ano depois, apenas há acordos indemnizatórios fechados com as famílias de quatro vítimas.

Esqueceram porque, um ano depois, há vítimas e famílias que não foram sequer nunca contactadas por ninguém.

Esqueceram porque, um ano depois, só temos relatórios preliminares (nenhum deles da Carris) e continuamos sem saber o que aconteceu.

Esqueceram porque, um ano depois, nada se esclareceu e ninguém assumiu responsabilidades.

O presidente da Câmara de Lisboa, sempre no centro do espaço mediático, desdobrou-se em declarações nos dias a seguir ao acidente, mas hoje sabemos que nem sequer contactou as vítimas, ao contrário do que anunciou, e esconde-se atrás de um silêncio vergonhoso. Carlos Moedas atira as responsabilidades para a Carris, que é uma empresa detida a 100% pelo Município, a Carris atira as responsabilidades para a Seguradora e invoca até alegados atrasos na realização das perícias médico-gerais, que o Ministério Público já veio desmentir.

Nos dias seguintes à tragédia, a CML aprovou por unanimidade, ainda no mandato passado, a criação de um fundo municipal de apoio às vítimas, o desenvolvimento de uma plataforma para disponibilizar publicamente toda a documentação relevante, relatórios técnicos e dados sobre o sinistro, a criação de um memorial coletivo na Calçada da Glória em articulação com as famílias das vítimas, entre outras medidas. Um ano depois nenhuma destas medidas está implementada, à exceção do memorial inaugurado ontem, sob críticas de muitos familiares, que, numa carta aberta, denunciam ter sido esta a primeira vez que foram contactados e criticam os condicionamentos na cerimónia. Os vereadores da oposição, esses, não foram sequer informados e foram excluídos da única homenagem formal que a CML fez às vítimas.

Sabemos que estas situações são complexas e tecnicamente exigentes, mas têm de ser dadas informações e prestados esclarecimentos sobre os processos em curso. As inúmeras perguntas que a oposição tem colocado em reunião de câmara não merecem nenhum tipo de resposta: qual o ponto da situação do pagamento das indemnizações e dos apoios prometidos às vítimas e suas famílias, o porquê dos atrasos na contratação dos serviços necessários à realização da auditoria interna, o estado desta auditoria, quais as medidas adotadas, entre outras. Carlos Moedas esconde-se atrás de acusações de um suposto aproveitamento político que nunca ninguém fez para manter uma total e comprometedora opacidade. E a Carris apressou-se a apresentar o projeto para o futuro elevador, como forma de desviar as atenções. Mas o futuro não se constrói em cima do esquecimento do passado.

As vítimas que entraram naquele elétrico no dia 3 de setembro merecem o apuramento cabal das responsabilidades, no plano técnico, jurídico e político. A ética exige que se retirem consequências. Um ano depois nada disso aconteceu, para vergonha de todos nós.

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