Em outubro, o tema central das conversas e dos webinares roda à volta da saúde mental, nos diversos contextos. O trabalho não é exceção. O Dia Mundial da Saúde Mental é uma oportunidade para explorar preocupações, olhar para novos dados e tentar promover literacia no tema. Falamos de stress, burnout, equilíbrio entre a vida profissional e pessoal. Falamos também da importância de pedir ajuda, de desenvolver estratégias para lidar com as exigências e de aprender a cuidar de nós. Tudo isto é importante. Mas talvez não seja suficiente.
O trabalho não é necessariamente um problema para a saúde mental. Pelo contrário, dá estrutura, sentido ao dia, promove relações e reconhecimento, fomenta a aprendizagem e o sentimento de pertença. Mas também pode produzir riscos quando é mal organizado. Dados do OSH Pulse 2025, da EU-OSHA, indicam que 29% dos inquiridos referem ter experienciado, nos últimos 12 meses, stress, depressão ou ansiedade causados ou agravados pelo trabalho. Um em cada três sente que os seus esforços passam despercebidos e quase 30% identificam problemas de comunicação ou cooperação nas equipas.
Talvez uma das dificuldades esteja em continuarmos a olhar para a saúde mental sobretudo como uma questão individual. Procuramos ensinar as pessoas a gerir o stress, a desenvolver resiliência, a estabelecer limites e a cuidar de si. São ferramentas importantes, mas não podem substituir a reflexão sobre as condições em que o trabalho acontece.
Se as características do trabalho têm impacto na saúde e no bem-estar das pessoas, então não é possível falar da saúde mental no trabalho sem focar no desenho do próprio trabalho. Promover saúde mental no trabalho não é só tratar das pessoas. É, antes disso, cuidar do trabalho. Mais concretamente, implica olhar para a carga de trabalho, os horários, as lideranças, a comunicação, a tomada de decisão, a autonomia, o reconhecimento e os conflitos.
O Dia Mundial da Saúde Mental pode ajudar-nos a dar visibilidade a estas questões, mas a saúde mental no trabalho não se constrói num dia. Constrói-se nos outros 364, através da avaliação dos riscos psicossociais, da definição de planos de ação e de programas estruturados que respondam a objetivos concretos. Constrói-se também quando somos capazes de repensar o trabalho e, quando necessário, redesenhar funções críticas para a organização. E constrói-se quando avaliamos se aquilo que fazemos está, de facto, a produzir os resultados que procuramos.
Se sabemos que determinadas condições de trabalho estão relacionadas com a saúde mental, cuidar das pessoas implica também ter coragem para olhar para o trabalho e, quando necessário, mudá-lo. No final, ganhamos todos: pessoas, organizações e sociedade.