Um dia de ‘Copa’

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Na segunda-feira, 29 de junho, dia do jogo com o Japão, dos dezasseis avos de final do Mundial de Futebol, ou Copa, como preferencialmente se diz no Brasil, os governos da maioria dos estados e as prefeituras da maioria das cidades decretaram tolerância de ponto dos serviços públicos, sinal de que, se o evento é caso sério no mundo todo, no “país do futebol” é-o mais ainda.

Os bancos privados, por decisão da federação deles, funcionaram só até ao meio-dia (o jogo foi às 14h00 locais) ou nem abriram. Atendimentos apenas por telefone e pelas opções gravadas.

O tráfego aéreo em Guarulhos, Congonhas e outros aeroportos do país foi condicionado, o metropolitano de São Paulo teve operação limitada, os ônibus trataram a segunda-feira como se de um domingo se tratasse – até porque nos dias em que os canarinhos jogam não há mesmo quase ninguém nas ruas.

Alguns dos maiores centros comerciais brasileiros fecharam portas. Exames de condução foram cancelados. A coleta de lixo, idem.

Consultas médicas, exames laboratoriais e cirurgias não-urgentes foram remarcadas por causa do duelo com os japoneses. Cartórios do Registo Civil alteraram o horário de funcionamento e, por isso, houve notícia de noivos a remarcarem a data dos casamentos para lá do fim da Copa. O Poder Judicial adiou audiências.

Nem os mais crentes, aqueles que mantiveram a fé mesmo após Kaishu Sano colocar o Japão em vantagem, tiveram uma segunda-feira normal de orações: a maioria das igrejas deu tolerância de ponto aos párocos e funcionários e, por isso, não abriram. Os centros espíritas – o Brasil tem a maior população espírita do mundo – também encerraram as portas, sinal de que no país os jogos são acompanhados além deste plano.

E foram apenas os dezasseis avos; faltam, se tudo correr bem à equipa de Carlo Ancelotti, os oitavos, os quartos, as semis e a final ainda para o hexa.

Por outro lado, como a maioria dos bares e restaurantes fecharam para dar folga aos garçons-torcedores, os poucos que abriram ficaram tão apinhados, logo umas quatro horas antes do apito inicial, que se tornou impossível almoçar fora sem enfrentar filas homéricas.

O delivery foi solução? Não. Além de algumas aplicações de entrega terem entupido de pedidos, muitos motoboys simplesmente estacionaram as motos a assistir ao jogo de Vini Jr. e companhia nos celulares.

Até os mais previdentes, aqueles que armazenaram bebida e comida de véspera, correram riscos: como nas partidas anteriores da Copa, com Escócia, Haiti e Marrocos, o Operador Nacional do Sistema Elétrico registou oscilações históricas (5.632 MW) por, no intervalo, milhões de pessoas ligarem ao mesmo tempo a luz do banheiro ou abrirem a geladeira para pegar mais uma cerveja, os especialistas alertaram para a possibilidade de apagões Brasil afora.

E mesmo à hora de jantar, já muito depois de o Brasil se classificar para a fase seguinte, restaurantes abertos de certeza só os japoneses, com promoções de sushi prometidas antecipadamente em caso de vitória brasileira sobre o selecionado nipónico.

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