Qualquer portuense que se preze, com uma infância vivida ainda no século passado, sabe que algo não está bem quando os termómetros passam dos 30 graus na nossa mui nobre, leal e very british Invicta. Crescemos habituados à neblina matinal, morrinha ao pé da praia e a indispensável nortada que molda os mais resistentes. Temos as memórias de infância equilibradas entre dias de gelados e calor ao pé da bola de Nívea e outros embrulhados em toalhas a combater o frio ao pé do mar em pleno agosto.Não é, por isso, "apenas o verão", lamento, quando temos uma semana de temperaturas nos 40º e suor a pingar para o asfalto onde se consegue estrelar um ovo logo às 10h00 da manhã. Fomos apanhados pelo clima, sim, pelas alterações climáticas em curso, pelos fenómenos extremos que teimam em querer tornar-se "normais" e vêm expor os erros que fomos cometendo na construção das cidades ao longo dos anos.Este sábado, quando cheguei à zona onde se concentram o Hospital de São João e o principal polo universitário do Porto – frequentada diariamente por muitos milhares de pessoas – o termómetro da farmácia local anunciava uns redondos 40 graus, já depois das 5h00 da tarde. Pouco depois, apenas o tempo da viagem de carro, uns dez quilómetros mais para sul, numa zona de Gaia próxima de uma das manchas verdes que ainda resistem, já sob influência de alguma brisa marítima, a temperatura descera uns assinaláveis sete graus, num bom exemplo das diferenças de conforto térmico entre áreas completamente edificadas que se transformam em verdadeiras ilhas de calor dentro das cidades e outras que contam com alguma proteção verde. Há muito que os urbanistas e especialistas em saúde pública alertam para a necessidade de devolver espaço à natureza nas cidades. Um dos princípios que tem vindo a ganhar maior reconhecimento é a chamada regra 3-30-300: cada pessoa deveria conseguir ver pelo menos três árvores da janela de casa, viver num bairro com 30% de cobertura arbórea e ter um parque ou jardim a menos de 300 metros da sua residência. Não se trata de qualquer ideia romântica ou capricho paisagístico, é uma proposta sustentada por evidência científica que associa mais árvores e mais espaços verdes a temperaturas mais baixas, melhor qualidade do ar, maior bem-estar físico e mental e menor mortalidade durante episódios de calor extremo.Infelizmente, estamos longe dessa realidade. Um estudo recente, publicado na revista científica Nature Communications, analisou centenas de cidades europeias e colocou Portugal entre os países piores classificados, com apenas 2,0% da população urbana a viver em locais que cumprem os três critérios em simultâneo. E o número devia preocupar-nos. Adaptar os nossos espaços urbanos deixou de ser uma opção estética ou ambiental. É uma necessidade de saúde pública, de qualidade de vida e de proteção das pessoas. Quanto mais tempo demorarmos a agir, mais difícil será construir cidades capazes de enfrentar o clima que já chegou. Eu, pelo menos, sei que odiaria ver o meu very british Porto transformado numa lenda para contar aos netos em noites tropicais.