A guerra iniciada a 28 de fevereiro pelos EUA e Israel contra o Irão não é apenas um foco de instabilidade no Médio Oriente e um fator de perturbação mundial de alto risco. Resulta de uma decisão labiríntica, que levanta muitas questões. Por essa razão, tornou-se o tema mais debatido nas diversas arenas internacionais. Os ângulos de análise são numerosos: a legalidade da decisão, os seus objetivos, incluindo o poder nuclear do Irão e a essência do seu regime, as implicações geopolíticas, macroeconómicas e humanitárias, a marginalização absoluta da diplomacia e do sistema político multilateral, bem como questões relacionadas com a política interna norte-americana.Para nós é igualmente o choque que expôs as hesitações estratégicas da União Europeia. Enquanto o mundo se interroga sobre o futuro, a Europa enfrenta uma verdade inegável: ao deixar-se arrastar para o Golfo Pérsico, corre o risco de se esquecer que o futuro do nosso continente se decidirá, em grande parte, nas planícies da Ucrânia.Para a Europa, o apoio à Ucrânia não é uma qualquer escolha de política externa, entre outras - é sim uma prioridade absoluta. Trata-se da defesa da nossa integridade territorial e dos nossos valores, da segurança dos países vizinhos candidatos à adesão à comunidade e da sobrevivência do projeto europeu. A agressão russa não visa apenas Kiev, mas sim e sobretudo a demolição de toda a arquitetura de cooperação que tem sustentado a paz no nosso continente desde 1945.O regresso da Ucrânia a uma situação de paz, sólida e justa, reforçará a convicção de que as fronteiras europeias permanecerão invioláveis. Para a Europa, perder anunciaria um futuro de submissão perante Moscovo ou uma dependência sem fim à vista de uma Washington agora cada vez mais distante da filosofia e das opções políticas europeias.Deixemos a Rússia para acrescentar que a UE não pode estar subordinada aos ziguezagues e aos interesses norte-americanos. Parceria e aliança não podem ser sinónimos de vassalagem. Isso não implica abdicar da crítica e das sanções a regimes autocráticos. As sanções são uma via para resolver querelas entre os Estados, sem recurso à guerra. Inaceitáveis são os conflitos armados e as ações militares fora do quadro legal das Nações Unidas.Uma dimensão alarmante do presente conflito no Médio Oriente é a drenagem imediata de recursos que seriam vitais para a defesa legítima da Ucrânia. As estimativas mais recentes indicam que mais de 1000 mísseis intercetores Patriot (PAC-3) já foram disparados contra os ataques iranianos desde 28 de fevereiro. Trata-se de um contraste onde a Ucrânia sai a perder, apesar da gravidade e da legitimidade da sua situação serem incomparavelmente superiores. Em quatro anos de resistência, a Ucrânia recebeu menos de 600 desses mesmos mísseis intercetores. Esta disparidade sugere que a Administração Trump prioriza marcadamente os objetivos regionais do governo de Benjamin Netanyahu, em detrimento das democracias europeias. Bruxelas não pode assistir em silêncio enquanto o “escudo” que deveria proteger o céu ucraniano é consumido numa estranha guerra no Médio Oriente. Cada recurso gasto no Médio Oriente representa uma nova oportunidade para os mísseis russos que massacram dia e noite o povo ucraniano.É à luz deste erro estratégico que deve ser lida a posição recente da liderança europeia. Neste cenário, a mensagem que Ursula von der Leyen passou esta semana aos embaixadores da UE é profundamente ambígua. O discurso deixou a impressão que Von der Leyen se aproximou mais das ideias de Trump e de Netanyahu do que da letra e do espírito da Carta das Nações Unidas. No caso concreto dos ataques ao Irão, Von der Leyen ecoou mais os argumentos - os pretextos, seria mais correto dizer - repetidamente mencionados por Washington e Telavive que o Direito Internacional. Saiu do campo da neutralidade e da mediação, fragilizou uma vez mais a linha mais dialogante de Kaja Kallas e deixou uma parte significativa dos observadores europeus perplexos, incluindo algumas alas importantes do Parlamento Europeu.A Europa deve ser vista pelo resto do globo como um espaço de valores e de acatamento do Direito Internacional, de equilíbrio geopolítico e de defesa do sistema multilateral. É aí que reside a nossa força, na cooperação com os países do Sul que veem na Lei Internacional a proteção de que necessitam. Ao adotar a retórica da “força militar”, como se a Europa pudesse tornar-se da noite para o dia uma superpotência armada, a presidente da Comissão pareceu ignorar que a verdadeira autoridade da nossa União assenta na aceitação dos valores universais e na solidariedade com os diferentes povos do mundo. Como sublinhou António Costa após o discurso da presidente, a UE deve defender a ordem internacional baseada em normas. Costa não deixou espaço para ambiguidades.Também não quero ser visto como ambíguo. Sou contra a submissão e não defendo uma política de neutralidade, porque não escolher já é, em si, uma opção, e raramente a melhor. Não advogo nem o silêncio, nem a indiferença. Já Dante dizia há mais de sete séculos na Divina Comédia, a sua obra monumental, que “no inferno, as labaredas mais impiedosas estão reservadas para os que escolheram a neutralidade em tempo de crise”. O respeito pela Lei Internacional e pelo direito à legítima defesa não são neutrais. São maneiras civilizadas de dizer não às decisões arbitrárias, ao uso da força bruta e aos ataques contra os Direitos Humanos. É essa clareza meridiana que espero dos dirigentes europeus e que o futuro nos exige.