Estamos a assistir, com as eleições das últimas semanas, a uma mudança política e social que vai afastar do poder a direita radical e a extrema-direita, e que se iniciou com a estrondosa “virada” de Lula no Brasil.
As midterms nos EUA vieram confirmar que está em curso uma transformação nas opções do eleitorado, com o crescimento de uma onda progressista, democrática e humanista, que se traduziu num verdadeiro tsunami democrata.
É verdade que, por regra, os presidentes americanos perdem as eleições intercalares (o partido do presidente perdeu 20 das últimas 22 eleições desde 1938), mas a dimensão da derrota de Trump é avassaladora.
Primeiro, porque os democratas ganharam o controlo das duas câmaras do Congresso com maiorias confortáveis, particularmente no caso do Senado, que, tudo aponta, ficará com uma diferença de 56 para 44 lugares, com vitórias democratas significativas no Texas (apesar do massivo financiamento de Musk ao candidato republicano), no Ohio, na Geórgia, no Kansas, no Alaska e no Mississipi. E isto apesar de terem ido a votos, sobretudo, estados conservadores.
Em segundo lugar, também nas eleições para o cargo de governador os democratas tiveram uma vitória enorme, invertendo a correlação de forças que existia antes das eleições. Passará a haver uma maioria de governadores democratas, ao contrário do que acontecia antes.
Os republicanos sofreram derrotas significativas em estados que eram tradicionalmente seus, como a vitória de James Talarico no Texas, onde os democratas não elegiam um senador desde 1988, no Kansas, onde ocorreu a primeira vitória democrata para o Senado desde 1932, e na Carolina do Sul, onde Trump tinha vencido o estado por 18 pontos em 2024.
Outro fator muito interessante, que aponta para uma transformação social importante, decorre de algumas vitórias simbólicas, designadamente de Deb Haaland, eleita governadora do Novo México, que é a primeira mulher indígena americana a vencer uma eleição; de Scott Colom, o primeiro senador negro eleito pelo Mississippi em 145 anos e o primeiro democrata eleito por este estado desde 1982; e de Abdul El-Sayed, que venceu no Michigan e é o primeiro muçulmano eleito para o Senado.
Donald Trump, demente e mitómano, apressou-se a sacudir responsabilidades, dizendo que se a cara dele estivesse nos boletins de voto os resultados teriam sido diferentes. Mas, na verdade, vários candidatos apoiados pessoalmente por Trump, como Ken Paxton, no Texas, Michael Whatley, na Carolina do Norte, Darline Graham, na Carolina do Sul, e Mike Rogers, no Michigan, perderam as eleições.
Esta derrota colossal marca o princípio do fim de Trump, até porque muitos republicanos, mesmo alguns que pertenceram ao movimento MAGA, já vieram criticá-lo, além de que os poderes de controlo do Congresso impedirão que, pelo menos em algumas matérias, Trump continue a conduzir a sua política autocrática, isolacionista, pró-Putin, anti-humanista e negacionista das alterações climáticas.
São excelentes notícias para a Democracia, para a paz, para a liberdade e para os direitos humanos, e a confirmação de que começa a surgir uma onda progressista no Mundo.