Trumpolinices e barbaridades

João Caupers

Antigo presidente do Tribunal Constitucional e professor catedrático jubilado

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Confiando na imprensa escrita em que as li, proponho-me comentar uma justificação e uma intenção.

A justificação assenta numa frase atribuída ao presidente norte-americano (agora vendedor de gasóleo russo à comissão), referindo-se à Venezuela e ao seu petróleo: “Nós derrotámo-los, logo temos direito aos despojos, o petróleo.” To the victor belong the spoils, disse, enfaticamente.

Nos tempos da Roma Imperial, era assim: os vencedores romanos apropriavam-se dos bens dos vencidos e também das pessoas destes e suas famílias, reduzidos à condição de escravos. Exibiam-nos em desfiles pelas ruas de Roma. Trump replicou, modernizando-o, este comportamento com o rapto do então presidente da Venezuela e da mulher e as imagens destes, à chegada aos EUA, acorrentados, nas televisões. O espetáculo da humilhação!

Já não era assim ao tempo da Revolução Francesa. Os bens dos vencidos eram ocupados, requisitados ou expropriados pelo Exército vencedor – num quadro de legalidade aparente –, embora também fossem, amiúde, saqueados pelos soldados vitoriosos. No século XX, pelo menos depois da Segunda Guerra Mundial, passaram a respeitar-se, em princípio, os bens dos vencidos, muito embora os abusos subsistam até aos nossos dias.

Já não lia a palavra “despojos”, a não ser em livros de história ou ficção histórica, há muito tempo. Regressámos, parece, a um passado, imaginado em Hollywood, de armas e estandartes dos vencidos amontoados pelos soldados vencedores aos pés do seu general. É um insólito regresso ao passado, só compreensível pela arrogância e pela brutalidade dos vencedores.

Agora a intenção.

Não é só ao tempo dos despojos de guerra que nos querem fazer regressar. Na melhor tradição do circo romano, a aplicação da pena de morte – em si mesma um castigo bárbaro, impróprio de um país que se diz civilizado – volta a atrair multidões: depois dos Autos de Fé da Inquisição, das decapitações na Inglaterra dos Tudor, da guilhotina na França revolucionária, dos enforcamentos de Lynch no farwest e das degolações da Al-Qaeda, teremos os fuzilamentos de Hegseth.

Que não haja dúvidas: com o Súper Secretário da Guerra, crimes indiscutivelmente horríveis, como o que está em causa – o massacre de 13 militares cometido, num quartel, por outro militar –, não podem ficar sem consequências.

E como não podem ficar sem castigo, além de os punir com a morte, nada mais adequado ao America First do que voltar aos tempos da morte espetáculo, tipo Super Bowl (ignoro se já estão a vender bilhetes). Melhorando a performance de Calígula – que terá querido nomear cônsul o seu cavalo –, Trump nomeou mesmo seu secretário da Guerra um burro (perdoe-me o simpático solípede o abuso do seu nome, mas o animal a que me refiro só tem duas pernas).

Enfim, a minha esperança é que o lamentável 45.º e 47.º presidente dos EUA, de tanto andar para trás no tempo, acabe por ir parar à Pré-História, levando com ele o bando de trogloditas que o apoia.

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