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João Caupers

Antigo presidente do Tribunal Constitucional e subscritor do 'Manifesto 50+50 pela Reforma da Justiça'

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Constituía lugar comum, décadas atrás, afirmar que o desporto era uma escola de virtudes. Em competição, perdia-se com honra e ganhava-se com justiça. Não se humilhavam os adversários.

Claro que sempre houve exceções – como o daquele árbitro de futebol que foi prolongando uma partida até que um das equipas obteve o resultado pretendido. Mas eram casos excecionais. Tão excecionais, que até nos ficaram na memória muitos anos passados!

Com a sistemática profissionalização dos desportos, nomeadamente o futebol, tudo foi mudando. O futebol deixou de ser um jogo empolgante, onde todos, futebolistas e público, se divertiam. Passou a ser uma atividade económica, em que as sociedades foram substituindo os clubes, os jogadores se compram e vendem, o desporto deu lugar ao espetáculo – as mais da vezes medíocre –, financiado por empresários e canais de televisão, os dirigentes desportivos foram substituídos por CEO de baixo nível e poucos escrúpulos.

O veneno do tráfico de influências e da corrupção foi contaminando tudo e todos. Houve clubes despromovidos de divisão, jogadores objeto de longos períodos de suspensão, ou, simplesmente, expulsos e outros castigos, escândalos de apostas, subornos de jogadores e árbitros, estádios que custaram fortunas hoje abandonados. Clubes e SAD existem que deixaram de adquirir ou manter os jogadores necessários ao êxito desportivo, e os compram para os renegociar de acordo com as conveniências dos agentes desportivos, premiados com chorudas comissões.

Mas se a degradação do futebol já era visível há anos, agravou-se significativamente com a entrada no “mercado” do dinheiro do petróleo. A “milionarização” dos futebolistas, atraídos por compensações monetárias gigantescas, estendeu-se às próprias federações, chegando-se ao ridículo extremo de a Supertaça de Espanha se disputar na Arábia Saudita!

O último Campeonato do Mundo, disputado no Qatar, há quatro anos, fora do período habitual, para evitar o calor tórrido, gerou, para salvar as aparências, uma investigação relativa ao alegado suborno, pelo Qatar, de diversas individualidades da FIFA, com peso na duvidosa decisão de escolha do país, situação agravada pelas suspeitas de uso de trabalho forçado nas obras da construção dos novos estádios.

Quando se pensava que a degradação tinha batido no fundo, entrou em campo o presidente do país mais poderoso do mundo, com o Exército mais poderoso do mundo, com a maior falta de senso, de escrúpulos e de vergonha do mundo.

Orgulhou-se publicamente de ter sido decisivo para a decisão daquele patético factotum presidente da FIFA, a quem confessou alegremente ter telefonado, para o “convencer” a levantar a suspensão disciplinar, por um jogo, do melhor avançado norte-americano, tendo o seu “pedido” sido atendido. E assim, em completo desrespeito pelas regras da FIFA e com um pobre argumento procedimental, Trump enterrou o pouco que restava da independência da organização.

Sem honra nem glória, pois, o David belga esmagou o Golias yanquee!

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