Nos Estados Unidos o voto católico, como o de outras “minorias”, ia tradicionalmente para os democratas. De resto, quando John F. Kennedy ganhou a presidência, um católico na Casa Branca era coisa nunca vista.Os católicos americanos são hoje 24% do eleitorado e a maioria votou republicano, ou melhor, Trump, nas eleições de 2016 e de 2024.Em 2016, Donald Trump ganhou os católicos a Hillary Clinton por 52% contra 45%. Mas houve nuances: se Trump ganhava a Clinton entre os “white catholics” (60% - 37%), Clinton ganhava a Trump entre os “hispanic catholics” (67% - 26%).Em 2020, quando Trump enfrentava o católico Joe Biden, a sondagem à boca das urnas do Washington Post atribuía-lhe 47% do voto católico contra os 52% de Biden; mas para a Associated Press e para a Fox News Trump ganhava a Biden, ainda que tangencialmente, por 50% contra 49%.Já em 2024, o Washington Post dava a maioria do voto católico a Trump-JD Vance, com 56%, contra os 41% de Kamala Harris-Tim Walz.É conhecida a personalidade do Presidente, nos antípodas da “correcção conservadora”. É também conhecida a sua recente polémica com o Papa, numa singular demonstração de “correcção protestante”, na insubmissão acintosa ao chefe da Igreja católica.Dir-se-ia longe do conservadorismo clássico e despreocupado com o voto católico. No entanto, o pouco conservador e pouco “católico” Trump não tem falhado na defesa dos valores cristãos da sacralidade da vida contra o aborto e a eutanásia, nem na protecção das comunidades cristãs em áreas de hostilidade, como nalguns países africanos e do Médio Oriente. A sua querela com Roma prende-se com a doutrina da “guerra justa”, com as “migrações” e com uma pretensa interferência do poder espiritual no poder temporal – como se o Papa pudesse deixar de apelar à paz, mesmo que os Estados tivessem por vezes de fazer a guerra, e a Igreja pudesse deixar de chamar os fiéis e os infiéis à caridade e à abertura aos imigrantes e refugiados, mesmo que os Estados devessem proteger as suas fronteiras e a sua identidade.Ora, no dia 11, os bispos americanos reunidos em Orlando, consagraram os Estados Unidos ao Sagrado Coração de Jesus, no 250º aniversário da independência. Leão XIII já o fizera, em 1899, mas consagrando-Lhe o mundo inteiro.E que fez Trump? Num tratado sobre os insondáveis desígnios do Altíssimo e da pós-modernidade, enviou aos Bispos uma mensagem: o casal presidencial juntava-se aos prelados na oração. Muito antes da independência, “a América era uma terra de oração e um lugar de milagres”; e os missionários, os colonos, os exploradores “que desbravaram o desconhecido” tinham “o amor de Jesus Cristo” como bandeira. De resto, logo a seguir à independência, a jovem república americana fora “consagrada a Maria, Mãe de Deus, por John Carol, o primeiro bispo católico americano”.Bem mais tarde, continuava a mensagem presidencial, Reagan fizera o seu histórico discurso na porta de Bradenburgo, instando Gorbatchov a deitar abaixo o Muro e a libertar o Leste do totalitarismo. Nesse mesmo dia, a pouco mais de 300 quilómetros, João Paulo II, falando em Gdansk aos seus compatriotas polacos, dizia que “a pior derrota” não era a das armas, mas “a do espírito humano.” E citando a liderança moral de Woytila, o Presidente passava às ideologias que hoje querem expulsar Deus da sociedade, comprometendo-se, à semelhança de Reagan e de João Paulo II, então protagonistas do combate anti-comunista, a “defender a identidade espiritual e a grande herança civilizacional da América”. O autor escreve de acordo com a antiga ortografia