Três questões sobre a paz no Médio Oriente

Filipe Alves

Diretor do Diário de Notícias

Publicado a

O acordo de paz alcançado entre os Estados Unidos e o Irão é, em si mesmo, um sinal positivo. Depois de meses de confrontos diretos e indiretos, de escaladas sucessivas e de um risco real de alastramento regional, o simples facto de Washington e Teerão terem encontrado uma fórmula mínima de entendimento merece ser registado como um avanço. Mas seria imprudente ignorar o essencial: subsistem dúvidas profundas sobre a sua sustentabilidade. A história recente do Médio Oriente ensina-nos que cessar-fogos não são sinónimos de paz e que compromissos formais podem ruir ao primeiro choque com a realidade.

Ainda é cedo para retirar conclusões definitivas. Mas há três questões que serão decisivas no curto e médio prazo e que determinarão se este acordo representa o início de um novo ciclo ou apenas uma pausa tática num conflito que parece não ter fim.

A primeira questão consiste em saber até que ponto o Irão pretende honrar o acordo. O regime dos aiatolas compreendeu algo fundamental: o conflito recente mostrou ao mundo que, numa guerra assimétrica, a dissuasão do fraco ao forte - neste caso, o bloqueio do Estreito de Ormuz - pode ser suficiente para obrigar uma superpotência a aceitar uma solução de compromisso. Esta perceção altera o equilíbrio estratégico. E torna provável que Teerão continue a usar a ameaça, direta ou através dos seus proxies, como instrumento de pressão. O Irão continuará a ameaçar a sobrevivência do Estado de Israel, e isso significa que o potencial de renovação do conflito permanece intacto.

A segunda questão diz respeito ao que fará Israel. Ficou claro que os Estados Unidos não pretendem um arrastar do conflito e que os ganhos territoriais obtidos por Israel nos últimos meses terão como contrapartida a continuação de uma guerra de guerrilha permanente, sem fim à vista. Israel está, mais do que nunca, refém de uma lógica de guerra eterna. No resto do mundo, a guerra é a continuação da política por outros meios, como ensinou Clausewitz. No Médio Oriente, parece ser o contrário: a política é a continuação da guerra por outros meios. Nenhum país pode viver assim para sempre. A grande dúvida é quanto tempo poderá Israel aguentar este estado de coisas, sobretudo se o apoio no Ocidente se desvanecer nos próximos anos - e se as potências ocidentais chegarem à conclusão de que o apoio a Israel, um porta-aviões avançado do Ocidente em pleno Médio Oriente, se tornou contraproducente, tanto em termos de política interna como de risco geopolítico. É à luz deste risco que a estratégia de Netanyahu - aproveitar ao máximo o apoio norte-americano enquanto este existe - pode fazer mais sentido.

A terceira questão diz respeito ao futuro da influência norte-americana na região. O conflito pode ter colocado em causa a solidez das alianças com os países do Golfo e, em certa medida, abalado as relações económicas e o sistema dos petrodólares. O desfecho do conflito não foi um “momento Suez”, mas alguns analistas encontram semelhanças com o que sucedeu ao Reino Unido em 1956: uma superpotência intervém esperando reafirmar a sua autoridade, mas acaba por expor os limites do seu poder, perder iniciativa estratégica e acelerar o seu declínio relativo. Ainda será cedo para chegar a esta conclusão, mas tudo indica que a guerra terá acelerado a evolução rumo a um Médio Oriente multipolar, com Israel, o Irão e a Turquia a perfilarem-se como futuras grandes potências regionais, enquanto atores como a Rússia, a China e a própria Europa procuram desempenhar um papel mais ativo.

O acordo entre os EUA e o Irão é, portanto, um ponto de viragem. Mas não sabemos ainda em que direção. Pode ser o início de uma estabilização gradual ou apenas o intervalo entre dois atos de um conflito que se tornou estrutural. O que sabemos é que as próximas semanas e meses serão decisivas para perceber se estamos perante uma oportunidade real de mudança ou apenas perante mais um capítulo de uma história que insiste em repetir-se.

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