Uma longa jornada de dez meses está prestes a terminar. Um sentimento de revolta germinou desde bem cedo. Fartos de terem os seus salários em erosão constante pelas políticas monetárias acomodatícias, pelas guerras, pela alta dos preços da energia, pelo Trump, a classe média portuguesa sente-se qual mortadela na sanduíche. Nem pobres para beneficiarem de apoios sociais, nem suficientemente confortáveis para conseguirem ter condições para uma reforma digna ou para uma vida ativa podendo desfrutar de boas condições.
Nesta classe média integram-se os bancários. Fartos de verem o setor financeiro auferir, em Portugal, de rendibilidades de capital do dobro da média europeia; percebendo o apetite de espanhóis e franceses por aquisições em Portugal. Fartos de banqueiros que se aumentam à razão de dois dígitos por ano, ano após ano; fartos de serem apenas uma peça na engrenagem. Os bancários manifestaram, semana após semana o seu descontentamento. Pelo pacto social estar a ser quebrado. Por os ganhos de produtividade irem apenas para os suspeitos do costume. E disseram aos seus representantes sindicais que estavam fartos.
E quiseram vir para a rua protestar. Ainda antes dos jovens (e menos jovens) reclamarem na rua um sítio para viver, os bancários marcaram manifestações e greve. Num raro assomo cívico, fizeram-no sem medo, sem tibiezas. Ao longo de dois meses, foram unânimes as vozes dos bancários. Fartos de serem espezinhados, um mero fator de produção, quiseram vir a terreiro.
Foram precisos dez longos meses para que as comissões executivas percebessem que uma empresa, qual gigante equipa, faz-se da união e da sincronização de todos. E que o mínimo a que se deve aspirar é que, podendo, as empresas não deixem de cobrir, sob a forma de aumentos das cláusulas pecuniárias, a inflação prevista. Mais a mais a inflação que corrói poder de compra de trabalhadores e pensionistas é boa para quem aceita depósitos e concede crédito.
Nas reuniões de conciliação, estes mesmos 3% agora alcançados em sede de negociação salarial, tinham já sido propostos pela Direção-Geral do Emprego e das Relações de Trabalho, o que fora prontamente rejeitado pelos bancos. Os mesmos que depois se desdobram em entrevistas a falar da conciliação entre trabalho e família, de apoio ao tecido produtivo e outros desideratos que tais. Quais santos e beneméritos.
Graças aos milhares de bancários, ativos e reformados, aos delegados sindicais, bem como fruto do apoio de tantos outros cidadãos anónimos, o bom senso prevaleceu.