Três por cento. É esta a fração dos alunos colocados na primeira fase do Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior de 2026 que pertence ao Escalão A (o escalão dos mais pobres). Mil seiscentos e vinte e cinco jovens.
De cada cem colocados, três.
Convém deixar o número respirar antes de lhe acrescentar seja o que for. Não é uma projeção, não é uma estimativa de um instituto qualquer, não é um estudo com margem de erro, não é uma avaliação partidária parcial. É a contagem oficial das colocações desta semana.
Dir-se-á que houve progresso. Em 2025 foram 1548 e que neste ano já foram 1625. Setenta e sete alunos. É esse o tamanho do avanço que o país produziu num ano inteiro de políticas públicas: 77 jovens pobres a mais numa universidade. Num país com mais de dez milhões de habitantes, o progresso anual em mobilidade social cabe numa sala de aula. Em duas, com aperto.
Vale a pena olhar para dentro do número, porque é aí que a coisa fica desconfortável.
Dos 1625 colocados do escalão A, 1252 entraram através do contingente prioritário (a reserva de 2% das vagas da primeira fase, criada em 2023 precisamente para corrigir esta desigualdade). Setenta e sete por cento.
Ou seja: a esmagadora maioria dos alunos pobres que hoje tem uma vaga no Ensino Superior só a tem porque existe uma medida de discriminação positiva a garanti-la.
E a investigação sobre o mecanismo diz-nos o resto: cerca de 41% dos que usaram o contingente não teriam sido colocados sem ele. Mais de 500 jovens. Retire-se a medida e o número de alunos pobres no Ensino Superior não estagna, infelizmente desaba.
Isto não é o retrato de um sistema que está a funcionar mal. É o retrato de um sistema que só produz estes três por cento porque alguém, há três anos, decidiu reservar-lhe vagas à força. O mérito, sozinho, entregava menos.
Há um segundo dado que devia bastar para abrir um inquérito ou para aprofundar estudos.
Apenas 43% dos alunos elegíveis chegam a ativar o contingente a que têm direito. O Estado construiu a porta, pintou-a, inaugurou-a e não disse a mais de metade das pessoas onde ela ficava. Não é uma falha de conceção da medida. É uma falha de comunicação com os cidadãos que a medida existe para servir e é inteiramente reparável com o dinheiro de uma campanha de informação nas escolas secundárias.
Quem duvidar de que o problema persiste tem um indicador fresco: o novo incentivo de 1075 euros para famílias do escalão mais baixo, criado no modelo de ação social que entra em vigor em 2026/2027, tinha, no final de agosto, 608 candidaturas submetidas. Seiscentas e oito, num universo que devia contar-se aos milhares.
Falta ainda dizer o que os números de colocações não conseguem mostrar, porque só medem quem chegou ao fim da corrida: entre os alunos mais pobres, apenas 56% esperam sequer vir a tirar um curso superior. A desistência não começa na plataforma de candidatura em agosto ou com as trapalhadas dos exames. Começa muito antes, no Secundário, quando um jovem faz as contas ao alojamento em Lisboa, no Porto ou mesmo em Coimbra e conclui que aquilo não é para ele. Nessa altura já nenhum contingente o alcança, porque ele nunca chega a candidatar-se. Sai das estatísticas antes de entrar nelas.
O Governo responderá, legitimamente, que reformulou o modelo de bolsas, que passou a calcular os apoios em função do custo real dos cursos e da capacidade das famílias, que reforçou o Suplemento de Alojamento em 30% do IAS.
É verdade mas entram em vigor agora, e a decisão de concorrer, ou de não concorrer, foi tomada meses antes de qualquer bolsa ser conhecida. Um apoio que só se confirma depois da colocação não influencia quem já desistiu antes dela. Caso para dizer que o calendário anula a política.
Fica então a pergunta que este número obriga a fazer em voz alta.
Durante décadas construiu-se um consenso nacional em torno da ideia de que o Ensino Superior era o elevador social do país, o mecanismo que permitia a um filho de operários chegar onde os pais não tinham chegado. Esse consenso continua a ser repetido em discursos de tomada de posse e em cerimónias de abertura do ano letivo.
Três em cada cem.
É esta a medida do elevador social em Portugal através do acesso ao Ensino Superior? E perante isto ninguém cora de vergonha?
Ou se contesta o número ou se contesta o discurso. As duas coisas já não cabem na mesma frase.