Três desafios para o Presidente Seguro

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Há dias que ficam gravados na memória coletiva, não pela pompa das cerimónias, mas pela sensação de que algo muda, mesmo que subtilmente. A posse de António José Seguro como Presidente da República é um desses dias. Não apenas porque o país ganha um novo rosto institucional, mas porque este rosto sereno, persistente, quase teimosamente moderado, chega ao cargo num tempo que parece feito para tudo menos moderação.

Ao contrário do seu antecessor, que sempre foi um comunicador efusivo e mediático, Seguro nunca foi um político de estridências. Sempre preferiu o passo firme ao passo largo, a conversa longa ao soundbite fácil. E talvez por isso mesmo o país o olhe hoje com uma curiosidade tranquila: o que fará um homem habituado ao silêncio estratégico quando lhe entregam o púlpito mais visível da democracia portuguesa?

O primeiro grande desafio é emocional, antes de ser político: reaproximar o país de si próprio. Portugal anda cansado, desconfiado e dividido em pequenas ilhas de irritação. Seguro tem agora a missão de devolver alguma paz ao espaço público, não com discursos moralistas, mas com gestos que mostrem que a Presidência pode ser um lugar de encontro e não apenas de vigilância constitucional. É um desafio de empatia, e esse é um terreno onde ele sempre se moveu com naturalidade.

"O novo Presidente terá como missão acabar com o 'frenesim eleitoral' que Portugal vive desde há vários anos (...)"
"O novo Presidente terá como missão acabar com o 'frenesim eleitoral' que Portugal vive desde há vários anos (...)"Reinaldo Rodrigues

Depois, vem a estabilidade, essa palavra que parece simples, mas que, nos dias que correm, vale ouro. O mundo está inquieto, a economia anda nervosa e a política nacional vive num permanente estado de pré-campanha. Seguro terá de ser o travão, quando for preciso travar, e o acelerador quando o país estiver a perder o ritmo. Não governa, mas influencia; não decide, mas orienta. E essa arte subtil de pesar cada gesto será decisiva.

O novo Presidente terá como missão acabar com o “frenesim eleitoral” que Portugal vive desde há vários anos e terá de ser um garante de estabilidade, para que as políticas que os portugueses sufragaram nas urnas possam realmente ser postas em prática. E, ao mesmo tempo, Seguro terá de ser exigente para com o Governo e os partidos, em áreas como a Saúde, a recuperação após os temporais recentes, a lei laboral, a reforma da Justiça e a política externa e de Defesa.

Há ainda um terceiro desafio, talvez o mais inesperado: reinventar a presença presidencial num país que já não vive ao ritmo dos discursos de Belém. Hoje, a política acontece no telemóvel, no scroll infinito e no comentário instantâneo. Seguro terá de encontrar um equilíbrio entre a discrição que o define e a visibilidade que o cargo exige. Não pode desaparecer, mas também não pode transformar-se num protagonista diário. É uma dança difícil, mas não impossível.

"Um dos desafios que António José Seguro tem pela frente é reinventar a presença presidencial num país que já não vive ao ritmo dos discursos de Belém. Terá de haver equilíbrio entre a discrição e a visibilidade que o cargo exige.”

E, no meio de tudo isto, há algo que joga a seu favor: a coerência. Seguro chega à Presidência sem máscaras, sem personagens ou reinvenções de última hora. Aprecie-se ou não, Seguro chega como sempre foi, ponderado, paciente e resistente. Num país habituado a líderes que mudam de pele conforme o vento, essa constância do novo Presidente pode ser, paradoxalmente, a novidade que faltava.

Ontem, ao ver António José Seguro subir a escadaria de Belém, o país não viu apenas um Presidente a tomar posse. Viu um homem que conhece as derrotas, que sabe o peso da dúvida e que aprendeu a caminhar mesmo quando o caminho parecia estreito. O povo tem sempre razão e talvez seja precisamente isso que Portugal precisa agora: alguém que não se deslumbre com o cargo, porque já aprendeu que, na vida política, nada é garantido.

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