Transformar o caos em capacidade de decisão

Maria João Correia

CEO do Segmento Urbano

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Em Portugal, o licenciamento urbanístico tem funcionado como um imposto implícito sobre o investimento: lento, pouco previsível e dependente de uma enorme tradução administrativa e técnica. Não é uma crítica às câmaras municipais, é um reflexo das condições em que trabalham.

Cada município gere milhares de processos por ano, com equipas técnicas reduzidas e procedimentos concursais para recrutamento que demoram meses até se concluir. Ao mesmo tempo, lida com um quadro legal em constante mutação, planos em revisão, novas exigências setoriais e uma pressão social crescente para “decidir mais depressa”.

O resultado é conhecido: cidadãos, mediadores e promotores deslocam‑se ao balcão do urbanismo para perguntar “o que se pode fazer aqui”, e a resposta depende não só da lei, mas da capacidade que cada equipa tem para interpretar a combinação de PDM, regulamentos, condicionantes e servidões aplicáveis. Temos um país com um regime jurídico comum, mas com 308 práticas diferentes.

Nos últimos anos, o Estado começou a responder a este problema. A reforma dos licenciamentos apontando para a eliminação de licenças desnecessárias, o reforço da comunicação prévia e a desmaterialização obrigatória dos procedimentos através de uma Plataforma Eletrónica dos Procedimentos Urbanísticos. É um passo decisivo.

Mas a tecnologia necessária para transformar o caos em capacidade de decisão não se esgota na plataforma de tramitação. Muitas câmaras já iniciaram processos de urbanismo digital, com submissão eletrónica, consulta online de estados de processos e autenticação digital. O desafio agora é ir além da digitalização do “papel em PDF” e utilizar estas ferramentas para algo mais ambicioso: organizar a informação territorial para decidir melhor.

Isso implica, por exemplo, que um técnico municipal consiga, numa só interface, visualizar de forma integrada o enquadramento de um terreno e simular cenários de uso compatíveis com esse enquadramento, em vez de ter de cruzar manualmente várias plantas e regulamentos. Implica também que um investidor possa compreender o potencial real de um projeto antes de sobrecarregar os serviços municipais com pedidos preliminares.

Ferramentas de análise territorial e plataformas especializadas podem funcionar como um primeiro filtro de qualidade da decisão, tanto a nível privado como público. Ao ajudar proprietários, mediadores e promotores a chegar ao município com propostas mais alinhadas com o quadro normativo, reduzem o tempo gasto em esclarecimentos básicos, diminuem o risco de processos inviáveis e libertam capacidade técnica interna para aquilo que realmente exige julgamento e ponderação política.

Para os municípios, isto significa reforçar a autoridade das decisões, porque passam a ser tomadas com base em informação organizada, inteligível e partilhada por todos os intervenientes. Significa também ganhar previsibilidade perante investidores nacionais e internacionais, num contexto em que o investimento imobiliário depende da confiança na estabilidade e transparência dos processos.

Os próximos anos são uma oportunidade única para que as câmaras municipais deixem de ser vistas como “o lugar onde tudo se atrasa” para se tornarem o lugar onde decisões difíceis são tomadas com rigor e previsibilidade.

Transformar o caos em capacidade de decisão não é apenas uma questão de lei; é uma questão de organização da informação e de ferramentas que a tornam utilizável. Municípios que assumirem esta mudança de paradigma estarão melhor posicionados para responder à crise da habitação, atrair investimento qualificado e proteger o território de forma credível e sustentável.

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