Tragédia anunciada

Rui Frias

Editor-Executivo Adjunto do Diário de Notícias

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Um rapaz de 15 anos matou a mãe com um golpe de mata-leão. A notícia recebida assim, sem mais detalhes, leva-nos a questionar de que monstro se trata. Só um monstro pode matar a própria progenitora assim, com tamanha violência, certo? Um dia depois, no entanto, a notícia ganha novas camadas. Ficamos a perceber que aquele monstro era, afinal, um adolescente que, tal como uma pequena irmã de 4 anos, era vítima de maus-tratos continuados, físicos e psicológicos. Mais: já por diversas vezes tinha denunciado esses maus-tratos às autoridades. E, de repente, torna-se difícil não sentir alguma empatia para com o monstro inicial desta história.

Culpe-se a mãe? Afinal, que espécie de monstro é este que violenta, ameaça e tortura repetidamente os filhos? Só que, mais uma vez, há novas camadas por descobrir. E esta mãe, agressora e violenta, era também ela vítima de agressões e violência. Foi-o durante anos, de um marido que de tanto que lhe fez acabou preso preventivamente, encontrando-se à espera de julgamento, acusado de violência doméstica e violação agravada. Esta é uma jovem mãe que deu à luz o filho que a matou quando tinha apenas 18 anos e, aos 33, se viu sozinha com duas crianças, deslocada do seu país, sem apoio familiar e com traumas de uma longa vida de violência para lidar. E, mais uma vez, torna-se difícil não sentir alguma empatia também com a história deste “monstro”.

Esta era, convenhamos, uma família desgraçada, uma tragédia iminente que se fazia anunciar a cada dia, uma tempestade perfeita à espera de acontecer. E, pior do que tudo, aparentemente todos o sabiam. Autoridades policiais, Comissão de Proteção de Crianças e Jovens, Tribunal de Família e Menores… E ainda assim a tragédia anunciada aconteceu mesmo.

Mais importante do que o tentador jogo de passa-culpas será assumirmos que houve, de facto, um falhanço coletivo rotundo num dos papéis principais do Estado, incapaz de proteger vidas claramente assinaladas a vermelho na escala de risco. Tenha sido desleixo, burocracia, incúria ou incapacidade – ou todos eles juntos – este é um caso que nos tem de fazer corar de vergonha enquanto país. E que torna importante perceber exatamente o que falhou.

Porque, afinal, de que serve sinalizar uma família se depois ninguém consegue chegar a tempo? De que serve um processo urgente se a urgência se mede em meses ou anos? Uma criança que denuncia violência, que apresenta provas, que pede para ser retirada de casa e que já tem ela própria um histórico de agressões sobre os pais não pode ficar dependente da velocidade de uma burocracia administrativa. Quando o risco é elevado, a resposta tem de ser imediata.

Andamos há anos a ouvir que a violência doméstica deve ser uma prioridade pública permanente, em discursos que se repetem a cada homicídio. E, no entanto, continuamos a ter demasiados casos empurrados para a gaveta seguinte, à espera de alguém para lhes pegar. Por vezes, como agora em Algés, isso fica tarde demais.

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