Tradições que são nossas na mesma medida em que são deles

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Proponho a quem mergulhar neste texto que, depois de ler a próxima frase, feche os olhos apenas durante três segundos e imagine aquilo que descrevo. Chapéus pretos enfeitados com folhos, paus nas mãos que evocam uma tradição antiga de danças com espadas, um grupo de músicos com instrumentos exóticos que os acompanham, e todos a interpretar coreografias quase acrobáticas. Se eu fizer o exercício que propus, se me desligar da intenção que imprimi nesta frase, sou remetido para pauliteiros do nordeste transmontano, em Miranda do Douro. Porém, não foi isso que descrevi. A semelhança é indiscutível entre os pauliteiros e os Morris dancers, dançarinos no Reino Unido que se dedicam a uma prática folclórica que, concluíram os etnólogos, tem raízes no século XV. Os chapéus enfeitados, a músicas e os paus nas mãos são deles, tal como são dos pauliteiros.

Além do chá que, reza a lenda, foi introduzido em terras de sua majestade pela infanta portuguesa Catarina de Bragança, que se casara com o rei Carlos II em 1662, Portugal tem ligações ancestrais ao Reino Unido e a outras tradições europeias que parecem estar a cair em desuso. Curiosamente, o Halloween, assinalado amanhã, parece estar a reunir cada vez mais adeptos, até em Portugal. Nas escolas, as crianças celebram esta véspera do Dia de Todos os Santos seguindo os procedimentos associados ao Halloween, remetendo para o esquecimento o Pão-por-Deus, que em quase tudo é semelhante (até nas abóboras), exceto no dia em que é assinalado: 1 de novembro.

Eu percebo que seja mais apelativo andar vestido de múmia com uma abóbora de plástico na mão a pedir doces de casa em casa, sob pena de fazerem uma travessura caso o pedido não seja aplacado, mas também é engraçado pedir o “bolinho ou tostãozinho” – uma tradição presente ainda em Torres Vedras e vagamente em Coimbra - enquanto se recita o poema que começa por “Bolinhos e bolinhós, Para mim e para vós, Para dar aos finados, Que estão mortos, enterrados, À porta daquela cruz, Truz! Truz! Truz! A senhora que está lá dentro, Assentada num banquinho, Faz favor de se levantar, Para vir dar um tostãozinho”.

FOTO: DR / VCordeiro

Parece-me evidente que a versão portuguesa do Halloween remete para um período de pobreza extrema que levava as crianças a fazer um périplo com o objetivo de obter algo para comer, nem que fosse pão ou um bocado dum enchido. As pessoas davam o que tinham em casa.

Por esclarecer fica a origem da tradição, mas há quem diga, sem qualquer fiabilidade ou suporte científico, que está ligada ao período que sucedeu ao Terramoto de 1755, marcado pela falta de recursos e pela fome. Fica a incógnita.

Agora, as crianças portuguesas, depois do 25 de Abril, vivem melhor, até as que crescem em bairros sociais periféricos. Em comum, todas falam no Halloween e querem ser vampiros e bruxas, e monstros, e Powerpuff Girls, e o John Wick na noite divertida que supostamente seria assustadora. E dilui-se o conceito de celebrar os antepassados, os mortos que nos são queridos, ainda que estejam mortos.

No México, as festividades análogas, associada ao Día de Muertos, duram três dias – entre 31 de outubro e 2 de novembro – e será a mais exuberante celebração dos antepassados, até porque, além da carga cristã (ou pagã, se fizermos essa leitura) associada a esta época na Europa, há influências milenares desta celebração entre os antigos povos pré-hispânicos.

Acima de tudo, esta época mostra-nos como ainda tratamos coletivamente com respeito a memória dos nossos antepassados, e somos todos semelhantes nesta abordagem, do México a Coimbra.

Para rematar esta ideia de laço universal e de prevalência de tradições em detrimento de outras, relembro que o instrumento europeu mais associado a tradições como as Morris dances ou os pauliteiros do nordeste transmontano são as gaitas de fole, que, tal como o Halloween e o Pão-por-Deus, não são exclusivas das culturas anglo-saxónicas. Na verdade são mais ibéricas do que escocesas, porque a representação iconográfica mais antiga de uma gaita de fole na Escócia remonta ao século XV, enquanto as iluminuras das Cantigas de Santa Maria, escritas no século XIII por Afonso X, o Sábio, avô de Dom Dinis, estão cheias de gaitas de fole.

É por isso que esta época, de celebração dos mortos, mais do que outra, mostra como só há uma raça: a humana. E no meio disto tudo concluímos que a nossa tradição não é melhor do que a deles ou vice-versa (sejam lá quem forem eles).