Trabalho para casa: eu sou um violador, eu sou um violador

Patrícia Reis

Jornalista e escritora

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Sete homens norte-americanos são acusados de terem violado uma jovem de 20 anos durante várias horas, numa casa da fraternidade Chi Phi, na Universidade de Cornell. Segundo a ação judicial agora apresentada pela jovem, estava alcoolizada, foi pressionada a consumir aquilo que lhe disseram ser cetamina e, enquanto se encontrava incapacitada, foi agredida sexualmente. Durante sete horas, por sete homens.

Um dos homens terá enviado uma mensagem para um grupo de Snapchat da fraternidade anunciando que havia uma mulher disponível no andar de cima. Outros homens apareceram.

Dois dos sete acabaram por ser expulsos da universidade. Os restantes receberam sanções menos severas que, segundo o advogado da jovem, incluíram suspensões, workshops e a possibilidade de escrever ensaios. Cornell contesta que a escrita de um ensaio tenha sido, para qualquer deles, a única consequência.

Enquanto isso, pensemos na jovem. Ela acabou por abandonar Cornell. Tinha entrado naquela que o seu advogado descreve como a universidade dos seus sonhos. Depois daquela noite, teve de continuar a existir no mesmo mundo onde existiam os homens que acusava e onde outros homens tinham recebido uma mensagem sobre o que estava a acontecer. Os pais queriam tirá-la dali, pediram as propinas de volta, Cornell recusou.

Talvez seja a pergunta que devemos fazer mais vezes quando falamos de violência contra as mulheres seja esta: quantas pessoas são necessárias para que uma agressão seja possível? As que a praticam, também as que riem, as que calam, as que não querem problemas, as que acham que não lhes diz respeito, as instituições que preferem gerir danos em vez de olhar para aquilo que aconteceu.

Em 2024, a antiga estudante de Cornell apresentou queixa e não houve quaisquer acusações criminais. Agora, depois da ação civil apresentada este mês e da atenção pública que o caso voltou a ter, o procurador do condado de Tompkins anunciou a reabertura da investigação e pretende apresentar o caso a um grande júri.

Talvez venha, por fim, a existir uma resposta da Justiça. Ou talvez não. Cabe à Justiça apurar os factos e as responsabilidades criminais. Mas existe uma pergunta que não precisa de esperar por um tribunal: Numa universidade, lugar de conhecimento e suposto alicerce da construção de um futuro melhor, o que ensinamos aos homens sobre a violência contra as mulheres? E, sobretudo, o que ensinamos aos homens que estão ao lado deles?

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