Torneiras secas, desculpas molhadas. A culpa da falta de água na Costa deve ser do PREC!

Ricardo Simões Ferreira

Editor-Executivo Adjunto do Diário de Notícias

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Não são de hoje, longe disso, os problemas de abastecimento de água na Margem Sul no verão. Têm pelo menos uns 45 anos. E as coisas neste país raramente mudam… para melhor.

Entre 1976 e 1981, na infância, passei temporadas em agosto na Costa da Caparica. A minha mãe arrastava a família (os meus avós, as minhas duas tias e a mim) para um apartamento frente à praia que todos os anos arrendava por duas semanas. Era uma espécie de tradição familiar que, também todos os anos, era acompanhada por… falta de água.

Lembro-me bem de ver, da varanda do sexto andar do prédio, o meu avô, ainda saudável – o Alzheimer que o atacou muito cedo, ainda antes de fazer 60 anos, foi uma das razões de termos deixado estes périplos estivais – a vir do mar carregado com dois baldes de água para os sanitários.

Não se sabia bem por que razão faltava água… Afinal, a Costa era pouco mais do que uma aldeia de pescadores e os prédios altos frente ao mar resumiam-se a dois. Nas ruas, muitos cães abandonados tentavam apanhar a comida que podiam nas laterais da Rua dos Pescadores, a única artéria verdadeiramente comercial da povoação.

Naquele tempo, esses mesmos pescadores puxavam na praia as redes com o peixe fresco e o meu avô por vezes até os ajudava, antes de ir reencher os baldes pesados da água salgada que o autoclismo público nos negava. A falta de serviços essenciais era talvez um mal passageiro – eu sabia lá o que era o PREC, mas tinha a ideia de que isto havia de melhorar.

Anos mais tarde, já na juventude, passei outras temporadas na Aroeira, desta feita com os meus tios paternos e o meu primo. E a água teimava em faltar. Por causa disso, o meu tio, marido da irmã do meu pai, colocou mesmo sobre o telhado da casa que construiu um reservatório em fibra de vidro. Já sabia o que a região gastava!

Gastava… e gasta. Hoje vivo na Sobreda, também na Margem Sul, algo que nesse tempo nunca pensei que viria a fazer (largar a “minha Lisboa” parecia-me impensável!). Mas o custo das casas, a proximidade da capital e a possibilidade de estar numa das zonas mais despoluídas e agradáveis a 15 minutos da cidade (isto é quase campo e está a cinco minutos da praia) conquistou-me. Nunca me passou pela cabeça que os problemas de “serviços básicos” da minha juventude não estivessem resolvidos.

Apesar de tudo, tenho sorte. A minha zona só foi afetada esta terça-feira, dia 7. Pelo menos, foi a primeira vez que dei por falta de água - apesar de, por qualquer misteriosa razão, a eletricidade falhar com frequência…

Faço, de qualquer forma, de há 20 anos para cá, parte da estatística daqueles que vieram aumentar a densidade populacional da Sobreda, mas também da Costa da Caparica, ou Capuchos, Laranjeiro ou Feijó – as regiões que têm sofrido cortes de água diários desde pelo menos meados de junho, com “cortes preventivos” assumidos desde 2 de julho.

E até ao passado domingo, estes milhares de meus vizinhos que se viram privados do mais elementar dos direitos não ouviram uma palavra da Câmara. E mesmo os Serviços Municipalizados de Água e Saneamento (SMAS) de Almada e o poder político camarário andaram a divulgar justificações curiosas, como o da maior densidade populacional da região (algo tão imprevisível de existir como o Natal ser a 25 de dezembro), a maior afluência de banhistas com o calor (saberão os gestores do SMAS o que acontece a 1 de janeiro?) ou um “consumo de água recorde” numa altura em que o país passa por uma onda de calor (nem faço mais comentários…).

Até que no domingo, 5 de julho, surgiu, por fim, a “explicação técnica” que faltava: a "rotura de grandes dimensões numa conduta adutora".

Rotura que, das duas uma: ou só ocorreu de facto nesse dia, pelo que ficam por explicar as semanas consecutivas de torneiras secas que a antecederam; ou se a rotura já existia antes, como é que uma avaria "de grandes dimensões" numa conduta adutora principal demora dias a ser formalmente detetada ou admitida por uma entidade gestora que se diz qualificada?

Se sabiam e calaram, preferindo culpar a vaga de calor e a "população sazonal" nos comunicados emitidos na quinta-feira, estamos perante um ato de grave omissão de informação, no mínimo, ou de manipulação política, no máximo. Se simplesmente não sabiam, estamos perante uma incompetência técnica assustadora. Não sei o que é pior!

Pouco tempo depois de me ter mudado para a Sobreda, lembro-me bem, havia cartazes da CDU perto de minha casa proclamando com orgulho: “A água é de todos! Não à privatização das águas.” Um lindo slogan. Mas na prática a água só é de todos se correr de facto nas torneiras das pessoas. Facto é que o SMAS de Almada continua 100% público e camarário, sendo inclusive presidido por Luís Palma, dirigente comunista que assumiu o cargo fruto do acordo de governação local entre a CDU e o PS de Inês de Medeiros. Mas de que serve a gestão pública se ela falha redondamente na sua missão mais elementar?

Na segunda-feira, foi este mesmo organismo que veio finalmente admitir que 93% dos furos que abastecem Almada (28 de um total de 32) estão, na verdade, localizados no concelho vizinho do Seixal. Entretanto, e como qualquer pessoa poderia prever, toda Almada cresceu de forma avassaladora – hoje soma mais de 202 mil habitantes. A tal infraestrutura da “água é de todos” continuou dependente da boa vontade e dos recursos do vizinho do lado. As sucessivas administrações nada mudaram, não se adaptaram.

Já esta terça-feira, dia 7, via Governo, ficámos a saber que Almada é “o município com maiores perdas de água” do país na sua rede de abastecimento, apresentando um desperdício superior a 35%. E para que não restem dúvidas sobre o desnorte político, a ministra do Ambiente revelou ainda que a autarquia não tinha enviado qualquer alerta ou pedido de ajuda ao ministério até ao dia anterior. Ou seja, a tal infraestrutura da “água é de todos” deu em “a água é de ninguém” – algo que, também, é um grande clássico nas gestões ditas “públicas”.

A água não falta em Almada por causa do calor, dos turistas ou de uma conduta azarada. A água falta porque não houve competência, planeamento, mérito e capacidade. Algo que já não vem de hoje – tem pelo menos 45 anos.

Resta saber durante quanto mais tempo quem cá vive continuará a permitir que assim seja.

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