Há poucas semanas, quando boa parte de Portugal estava a ser assolada pelos temporais, Timor-Leste decidiu enviar um donativo de apoio. Não foi a primeira vez que chegou a Portugal essa solidariedade do outro lado do mundo, o mais distante dos países lusófonos: no ano passado, também as autoridades timorenses tinham oferecido uma ajuda em resposta aos fogos em território português.Aliás, não resta dúvida da forte ligação emocional entre Portugal e a sua antiga colónia asiática. Os timorenses não esquecem a solidariedade do Estado Português, e do povo português, durante a ocupação indonésia, que durou entre 1975 e 1999. Foi obra da diplomacia portuguesa o referendo patrocinado pelas Nações Unidas que permitiu ouvir a vontade dos timorenses sobre o futuro que ambicionavam para a sua terra: quatro em cada cinco escolheram então a independência, proclamada finalmente em 2002, depois de uma primeira tentativa frustrada em 1975.Se há nome que simboliza a resistência timorense é José Ramos-Horta. Com Xanana Gusmão a liderar a guerrilha nas montanhas de Timor, coube-lhe liderar a frente externa. O Nobel da Paz que recebeu em 1996, cinco anos depois de o massacre no Cemitério de Santa Cruz, em Díli, ter exposto ao mundo a brutalidade do Exército ocupante, foi um passo decisivo para mobilizar a comunidade internacional contra a tentativa de anexação. . Herdeira das Índias Orientais Holandesas, desde a independência em 1949, a Indonésia sempre tinha respeitado a soberania portuguesa sobre a metade leste da ilha de Timor, onde os nossos navegadores chegaram no início do século XVI. Sukarno, primeiro presidente, chegou a visitar Portugal. Mas com Suharto no poder, e no contexto da Guerra Fria, Timor foi invadida no mesmo ano em que se deu a queda de Saigão. Para contrariar a teoria do dominó, e alegando que a descolonização portuguesa tinha aberto portas ao comunismo, Suharto procurou transformar os timorenses em indonésios, mas falhou. E hoje Timor-Leste é um jovem país que merece elogios, basta ver a posição que ocupa nos índices de democracia e de liberdade de imprensa.Ramos-Horta esteve em Lisboa para a tomada de posse de António José Seguro, dia 9. No Facebook contou que foram muitas horas a viajar, mas que não podia faltar, para cumprimentar o novo Presidente português. Voou de Díli para Bali, dai para Hong Kong, depois para Zurique e finalmente aterrou em Lisboa. “Chegámos no dia 8, a meio do dia. Temperatura amena, agradável. Não podia faltar. Cerimónia comovente, mais uma pedagogia de democracia. Parabéns Portugal. Vir a Portugal é vir à segunda Casa Mãe”, escreveu o presidente timorense, que me recordo de nos anos 1990 ir ao DN, no edifício histórico da Avenida da Liberdade, encontrar-se com Carlos Albino, o jornalista que acompanhava a difícil situação em Timor.."Timor-Leste merece que Portugal apoie com entusiasmo o ensino no país, enviando professores e materiais, e oferecendo bolsas de estudo no país.”.Também me recordo de o ter entrevistado em Díli, em 2021, antes de voltar a ser eleito presidente. Então, Ramos-Horta mostrou-se otimista sobre o futuro da língua portuguesa em Timor-Leste, que é oficial a par do tétum. Se o grande legado português é o catolicismo (e a Igreja foi essencial na defesa da identidade aquando da ocupação pelo maior país muçulmano), a opção pela língua portuguesa em detrimento do bahasa ou do inglês foi uma escolha política que merece que Portugal apoie com entusiasmo o ensino no país, enviando professores e manuais, e oferecendo bolsas de estudo. É longe? Sim, é longe, mas isso nunca impediu a solidariedade nos tempos de resistência à Indonésia, nem que agora Ramos-Horta viajasse longas horas para assistir à passagem de testemunho de Marcelo Rebelo de Sousa a Seguro. A distância também não existiu, quando Timor, país pobre, indo buscar aos seus limitados recursos petrolíferos, se lembrou de ajudar Portugal em tempo de tempestade ou de fogos.