A atividade parlamentar da última semana voltou a trazer para o centro do debate uma questão difícil que ainda consome muita gente de bem: como deve a democracia lidar com quem testa constantemente os seus limites? Num prato da balança pesam-se os riscos de dar palco à vitimização que faz parte das narrativas “antissistema”; no outro, os riscos de normalizar atropelos e abusos quando apenas se encolhem os ombros.Antes de mais, convém perceber que a Assembleia da República não é apenas um palco de confronto político, mas também, e antes de mais, a casa da democracia. Um espaço onde a liberdade de expressão e o debate aceso devem conviver com regras de respeito institucional, responsabilidade e decoro. Quando essas regras são sistematicamente desafiadas e desrespeitadas, estamos perante uma tentativa de redefinir as fronteiras do jogo democrático.Foi isso que Teresa Morais decidiu não deixar passar em claro, esta semana, no Parlamento. A vice-presidente da AR tomou as rédeas das sessões, na ausência do presidente Aguiar-Branco, e decidiu ser vocal na defesa da honra da instituição a que presidia naquele momento.Primeiro, no debate quinzenal com o primeiro-ministro, assinalando a André Ventura que não podia deturpar as regras da interpelação à mesa para continuar o discurso político e não recuando perante as desconsiderações do presidente do Chega, que a tentou menorizar dizendo-lhe que “nem deveria estar ali” naquele dia.Depois, no dia seguinte, quando decidiu não deixar passar uma acusação de Ventura à deputada Isabel Moreira, do PS, e às líderes parlamentares do Livre e do PCP, de ficarem caladas quando as mulheres são violadas por cidadãos estrangeiros. Ao afirmar que nenhuma deputada quer esconder violadores ou ignorar crimes contra mulheres, Teresa Morais não fez uma intervenção partidária, nem agitou qualquer bandeira feminista. “Limitou-se” a fazer o essencial: defender a honra da instituição a que presidia naquele momento.Há quem veja nesta atitude a ingenuidade de alimentar a narrativa preferida dos populistas: a do “sistema” que os quer silenciar. Basta lembrar como o antigo presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, foi tantas vezes acusado de contribuir para o crescimento do Chega por isso. Numa abordagem diferente está, por exemplo, o estilo do atual presidente, José Pedro Aguiar-Branco, defensor de deixar que a própria dinâmica do debate parlamentar regule os conflitos.Ambas as abordagens têm riscos evidentes. Mas quando um dia olharmos para trás para fazer o balanço deste tempo político, será importante perceber que houve quem não hesitou em erguer a voz para defender as instituições democráticas e os valores da decência. Teresa Morais, seguramente, não poderá ser acusada de ter assistido em silêncio.