Nos tempos em que vivemos, já se tornou claro que a paz mundial já não assenta nos mesmos pilares que a sustentaram durante a segunda metade do século XX. Nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, com a Europa, a União Soviética e grande parte da Ásia em ruínas, o mundo concentrou-se na reconstrução. A paz não era apenas um ideal, mas sim um desígnio partilhado e compreendido pela maioria dos líderes mundiais, moldados pela memória viva da destruição causada por um conflito que matou mais de 70 milhões de pessoas. A coexistência pacífica entre os Estados Unidos e a União Soviética não se explicava apenas pelo medo do armagedão nuclear; as duas superpotências sabiam que, mesmo num confronto limitado a armamento convencional, o custo humano e material seria incomportável e que, muito provavelmente, as suas sociedades não estariam dispostas a suportá-lo. Em 1945, Winston Churchill mandou preparar um plano para a eventual invasão da União Soviética pelos aliados anglo-americanos, no seguimento da vitória sobre a Alemanha Nazi. O nome de código escolhido pelo estado-maior britânico não poderia ser mais apropriado: “Operação Impensável” (“Operation Unthinkable”, em inglês). Após seis anos de guerra, o mundo estava exausto e as grandes potências centravam os seus esforços na reconstrução.Até aos anos 90, as principais potências mundiais foram governadas por figuras que conheceram a guerra e as suas consequências devastadoras. Eisenhower, De Gaulle, Khrushchev, Mao, Mitterrand, Brezhnev, Kennedy, Nixon, Ford, Heath ou Bush (pai) eram todos veteranos, marcados por uma experiência que lhes ensinou que a força bruta não resolve tudo e que, em determinadas situações, a vitória no campo de batalha pode constituir uma derrota moral. Outros, como Karol Wojtyła (o futuro João Paulo II), Adenauer, Monnet, Schuman, Andreoti, Thatcher ou Kohl, viveram a guerra como civis, mas de forma suficientemente próxima para compreenderem o que significa o colapso civilizacional que ocorre num conflito armado daquela natureza, onde um dos lados estava convencido de que era a raça superior e que, do outro lado, estavam seres que não eram portadores da mesma dignidade humana. Quando Isabel II morreu, em 2022, aos 96 anos, desapareceu a última chefe de Estado viva que servira nas forças armadas durante o conflito (em 1945, a então princesa esteve no Serviço Territorial Auxiliar). Com ela, fechou-se simbolicamente o capítulo de uma geração que liderou a reconstrução porque antes conhecera o abismo.Essa geração aceitava que a guerra pudesse ser um mal necessário - e sabia que o appeasement não é solução - mas não encarava o recurso à força como algo que pudesse ser decidido de ânimo leve. Daí ter construído um sistema multilateralista que procurava prevenir novos conflitos, privilegiando a resolução pacífica dos diferendos e o respeito pela soberania dos Estados. Havia a convicção de que a lei do mais forte não poderia voltar a imperar e daí o surgimento da Organização das Nações Unidas e de instituições como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional. A Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, percursora da atual União, nasceu também nesse contexto, pela mão dos já referidos Robert Schuman, Jean Monnet e Conrad Adenauer.É esse sistema que hoje está em crise. E não apenas por causa das decisões tomadas pela administração Trump, embora estas tenham acelerado tendências já em curso. A erosão do multilateralismo resulta de transformações que já estão em curso há algumas décadas, como o surgimento da desinformação em massa e da sua utilização como arma política e militar; a crise da globalização, que começou a ser colocada em causa pelo próprio Ocidente, que viu no protecionismo uma defesa contra a ascensão meteórica da China; a disputa pelos recursos críticos e pelo controlo de áreas de importância estratégica.Mas talvez mais preocupante do que o eventual falhanço do sistema multilateral seja a forma como a violência se banalizou, ao ponto de uma grande parte das opiniões públicas parecer insensibilizada, ou anestesiada, perante o manancial de sofrimento a que assistimos diariamente. O recurso à violência e à eliminação física dos adversários passou a ser visto como algo que é quase inevitável. Quem defende a paz é frequentemente tratado como ingénuo, sentimental ou desligado da realidade. A retórica da inevitabilidade - “o mundo é assim”, “não há alternativa”, “a força é a única linguagem que eles entendem” - instalou-se como se fosse uma verdade natural. Não deixa de ser irónico que tantas vezes se invoque a História para justificar tais posições, quando ela está repleta de guerras que poderiam, e deveriam, ter sido evitadas. Alguns impérios, que desapareceram há muito, poderiam mesmo existir nos nossos dias, se não tivessem enveredado pelo caminho destrutivo das aventuras militares insensatas.De resto, perante o potencial de destruição em massa do armamento moderno - convencional ou nuclear - quem será realmente ingénuo? O que acredita que a guerra é uma solução ou o que insiste que a paz é uma necessidade estratégica? O que normaliza a violência ou o que recorda que, num mundo interdependente, cada conflito regional tem o potencial de se transformar numa catástrofe global?A geração que viveu a Segunda Guerra Mundial sabia isto de forma visceral. A nossa geração parece ter esquecido. Talvez esse esquecimento seja hoje a principal ameaça à paz mundial.