O espaço sideral é já uma questão primordial na competição entre grandes potências. Por isso, os desertos do noroeste da China, em Xinjiang e em Gobi, atraem uma atenção muito especial. Imagens de satélites revelam vastos complexos militares e uma extensa rede com largas dezenas, centenas de plataformas de lançamento de foguetões, bunkers e enormes estruturas fortemente fortificadas. Construídas perto de silos nucleares – que albergam os mísseis intercontinentais de maior alcance da China –, estas infraestruturas visam garantir uma capacidade de retaliação imediata, caso o país sofra um primeiro ataque.Esta fortaleza terrestre é apenas metade da história. Os bunkers escavados na areia estão intimamente ligados aos satélites de vigilância chineses e formam, em conjunto, um sistema integrado de Defesa terrestre e espacial. Os meios concentrados no deserto dependem diretamente dos seus equivalentes orbitais: os satélites de aviso prévio Huoyan-1. Estes “olhos de fogo”, capazes de detetar a assinatura infravermelha dos mísseis inimigos logo após o seu lançamento, abrem uma janela crítica de três a quatro minutos, permitindo à cadeia de comando chinesa ordenar o disparo das armas armazenadas nos silos antes de estas serem destruídas.Estamos num mundo diferente da antiga corrida espacial. No final dos anos 50 e na década seguinte, o foco era o prestígio nacional e a imagem política dos EUA e da URSS. A maratona da competição espacial mudou. É hoje uma corrida de velocidade e alto risco.O espaço é uma das grandes prioridades estratégicas do presente. Muito do que se encontra na órbita baixa da Terra rege o nosso quotidiano: a logística global, a sincronização financeira, as comunicações, a resposta a catástrofes e as operações militares encriptadas. O país que dominar as normas técnicas, extrair os primeiros recursos cósmicos e controlar a infraestrutura orbital obterá um poder ambivalente sobre a economia global e a Defesa planetária, capaz de servir tanto o progresso humano como a hegemonia militar e um desastre global.A atual arena espacial é, assim, uma disputa geopolítica vital, marcada por quatro abordagens políticas distintas. Cada potência corre à sua maneira.As prioridades europeias concentram-se no desenvolvimento de infraestruturas espaciais indispensáveis para assegurar as comunicações estratégicas, no Projeto Galileu (navegação GPS) e Copérnico (observação contínua da Terra), no seguimento dos estilhaços orbitais (ver mais abaixo a referência a Kessler) e na investigação em matéria de lançamento de robôs. A escassez de capital de risco e a fragmentação – cada país por si – são as questões políticas que precisam de ser resolvidas.."O espaço é uma das grandes prioridades estratégicas do presente. (...) O país que dominar as normas técnicas, extrair os primeiros recursos cósmicos e controlar a infraestrutura orbital obterá um poder ambivalente sobre a economia global e a Defesa planetária, capaz de servir tanto o progresso humano como a hegemonia militar e um desastre global.”.Os Estados Unidos consolidaram a aposta nas parcerias público-privadas no setor aeroespacial. Através dos Acordos de Artemis, Washington procura promover normas internacionais que favoreçam a livre iniciativa para manter a sua supremacia, aproveitando a agilidade e a eficiência do setor privado. Artemis pretende estabelecer uma presença humana e robótica sustentada na Lua, testando novas tecnologias de extração de água e minerais.A China vê o espaço através de uma lente civil-militar profundamente integrada. Para Pequim, trata-se de um domínio estratégico sujeito ao controlo do Estado. A visão chinesa constitui um desafio explícito à primazia dos EUA. Nesse quadro, a China dá prioridade à Estação Internacional de Investigação Lunar (ILRS), procurando assegurar uma infraestrutura soberana e independente dos sistemas Ocidentais. A exploração do Polo Sul lunar tornou-se um objetivo central.A Rússia foi outrora um ator pioneiro. Hoje, apesar das restrições financeiras e das sanções que limitam o acesso a componentes tecnológicas, o setor espacial continua a ser tratado como prioridade. Mantém um caráter ultrassecreto. Mas sabe-se que investe, sobretudo, na pesquisa e no teste de armas antissatélite destrutivas, na inteligência a partir de naves espaciais e no armamento hipersónico. Esta opção tem um apreciável valor estratégico, quer defensivo quer ofensivo. A explosão dos negócios espaciais, operando a uma escala financeira sem precedentes, é outra característica da nossa era. O atual domínio dos EUA é largamente impulsionado por gigantes privados como a Blue Origin, de Jeff Bezos, e, mais notavelmente, a SpaceX, de Elon Musk. Ao promover os foguetões reutilizáveis, a SpaceX reduziu drasticamente os custos de lançamento. Com uma capitalização que já rivaliza com o PIB de Estados importantes, a empresa reescreveu as regras da geopolítica orbital.Estas empresas privadas deixaram de ser simples prestadoras de serviços. São hoje atores geopolíticos centrais, com enorme peso económico e um papel decisivo na Defesa americana. Mas, com o elevado valor económico vem uma séria vulnerabilidade estratégica. Em qualquer conflito potencial, a tentação de cegar um adversário destruindo os seus satélites de aviso prévio e de comunicações poderá não ter limites.Um ataque desse tipo – ou mesmo um choque acidental entre satélites em órbita – teria efeitos sistémicos devastadores. Corre-se o risco de desencadear a chamada Síndrome de Kessler: uma reação em cadeia catastrófica em que os detritos orbitais colidem com outros satélites, gerando exponencialmente mais fragmentos. Isso criaria rapidamente uma crise global, com a órbita terrestre saturada por detritos em alta velocidade e com impactos diretos em múltiplos sistemas essenciais. Afetaria não apenas a dissuasão militar: poderia comprometer a economia terrestre e provocar um retrocesso civilizacional de consequências incalculáveis.O Tratado do Espaço Exterior de 1967 deixou de ser adequado para uma era marcada por milhares de objetos em órbita – um número em crescimento contínuo – e pelo desenvolvimento de armas antissatélite (ASAT). A Segunda Corrida Espacial, a que está em curso, exige cooperação e regras muito mais estritas - um novo tratado. O espaço não pode ser visto apenas como uma competição ou uma extraordinária oportunidade de negócios. É a nossa sobrevivência coletiva que está em causa.