Uma palavra – oito séculos de história

Jean Galiev

Embaixador da República do Cazaquistão

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Há palavras que sobrevivem aos Estados.

Qurultai é uma delas.

Hoje, esta palavra regressa ao vocabulário político do Cazaquistão. Para o leitor português, poderá parecer apenas o nome invulgar de uma instituição do Estado. Mas por detrás dela está uma história que mergulha profundamente no passado e, ao mesmo tempo, abre um diálogo muito atual sobre a forma como o Cazaquistão encara o seu Estado e o seu lugar no mundo.

A palavra qurultai é conhecida na história política das estepes euroasiáticas desde a Idade Média. Designava assembleias nas quais os representantes mais influentes e respeitados do povo debatiam as questões mais importantes do poder. Em 1206, foi precisamente numa dessas assembleias que Temujin foi proclamado Gengis Khan.

Ao longo dos séculos seguintes, o mapa político das estepes mudou repetidamente. Estados surgiram e desapareceram, enquanto se transformavam as instituições políticas e as relações culturais. No século XV, neste espaço, formou-se o Canato Cazaque – um marco fundamental na história da construção do Estado cazaque.

Mas o Qurultai contemporâneo não é uma tentativa de restaurar um sistema político medieval. Entre as assembleias dos governantes e o atual órgão legislativo estão oito séculos de história. 

A palavra permaneceu. O seu significado mudou.

É precisamente isso que, a meu ver, merece atenção.

O Cazaquistão atravessa, hoje, mais uma etapa do seu desenvolvimento institucional. A nova Constituição, aprovada por referendo nacional a 15 de março de 2026, entrou em vigor em 1 de julho. Estabeleceu uma nova arquitetura do poder do Estado e previu um Qurultai (Parlamento) unicameral composto por 145 deputados, eleitos com base no sufrágio universal, igual e direto, por voto secreto.

Para mim, o mais importante não é a simples alteração do nome do Parlamento. Muito mais interessante, é a forma como um Estado transforma as suas instituições, preservando ao mesmo tempo a ligação à sua própria memória histórica.

A história não deve transformar-se num museu. Mas a modernização também não exige que um Estado se esqueça de onde veio.

O Cazaquistão procura o seu caminho precisamente entre estes dois extremos.

Não tenta transportar o passado para o presente. Um conceito histórico recebe um novo conteúdo no sistema contemporâneo de representação política. O qurultai medieval era uma instituição do seu tempo. Hoje, o Qurultai é formado através da escolha dos cidadãos e funciona no quadro da Constituição e da legislação moderna.

Para um Estado, a diferença é fundamental.

A modernidade de um Estado mede-se não pela idade das suas palavras, mas pela qualidade das instituições capazes de responder aos desafios do seu tempo.

Mas falar hoje do Cazaquistão significa inevitavelmente ir além da sua política interna.

O Cazaquistão encontra-se no centro da Eurásia – entre o Mar Cáspio, a China, a Rússia e os restantes Estados da Ásia Central. No passado, a geografia determinava o movimento das caravanas e das rotas comerciais. Hoje, volta a adquirir uma importância especial, mas sob uma forma diferente.

As rotas do comércio mundial estão a mudar. A Europa procura cadeias de abastecimento mais resilientes, novas ligações de transporte e fontes fiáveis de matérias-primas críticas. A Ásia Central afirma-se cada vez mais como uma região com importância própria no contexto internacional.

 Nesta nova geografia, o Cazaquistão ocupa uma posição particular.

A Rota Internacional de Transporte Transcaspiana, ou Corredor do Meio, liga a Ásia Central ao Cáucaso e à Europa. Para o Cazaquistão, representa uma oportunidade de transformar a sua posição geográfica numa moderna infraestrutura de ligações. Para a Europa, é uma das vias para estabelecer ligações mais diversificadas e resilientes com a Ásia Central e a China.

Não se trata apenas de caminhos de ferro, portos e fluxos de mercadorias. Por detrás deles estão investimentos, energia, matérias-primas críticas, tecnologias digitais e novas cadeias de produção.

É precisamente por isso que o Cazaquistão se torna hoje um interlocutor cada vez mais relevante para a Europa.

Para Portugal, este processo também merece atenção.

Os nossos países estão geograficamente distantes. O Cazaquistão encontra-se no centro do continente; Portugal, na sua extremidade atlântica. Mas é precisamente esta diferença geográfica que pode transformar-se numa vantagem.

Portugal sabe, pela sua própria história, olhar para além do seu espaço imediato. A sua posição na extremidade ocidental da Europa tornou-se uma base para a construção de amplas relações internacionais.

O Cazaquistão enfrenta um desafio diferente, mas em alguns aspetos semelhante: como transformar a sua posição no centro da Eurásia, de um simples facto geográfico para uma vantagem estratégica.

A resposta, a meu ver, está na abertura.

O Cazaquistão não tem interesse em escolher entre diferentes partes do mundo. O seu interesse é estar ligado a todas elas. É por isso que desenvolvemos relações com a União Europeia, os EUA, a China, os Estados da Ásia Central, o Cáucaso e outros parceiros.

Para nós, o multivetorialismo não é uma "fórmula diplomática bonita". É uma forma pragmática de preservar espaço para o nosso próprio desenvolvimento num mundo onde as linhas geopolíticas se tornam cada vez mais complexas.

 E aqui surge uma questão natural: que lugar poderá Portugal ocupar nesta nova geografia?

A resposta não tem necessariamente de ser grandiosa.

 Pode começar pelo comércio e pelo investimento, pelos transportes e pela logística, pelas matérias-primas críticas, pelas energias verdes, pelas tecnologias digitais, pela educação, pela ciência ou pelos contactos entre pessoas.

Mas, além das oportunidades económicas, existe uma base mais ampla – a compreensão mútua.

 Portugal e o Cazaquistão olham para o mundo a partir de pontos geográficos muito diferentes. É precisamente por isso que podem ser interessantes um para o outro.

Hoje, a Ásia Central assume uma importância crescente para a Europa. O Cazaquistão, por sua vez, olha cada vez mais atentamente para os parceiros europeus capazes de ver a região não através do prisma da rivalidade alheia, mas como um espaço de desenvolvimento autónomo e de cooperação.

Isso não exige grandes declarações, mas diálogo atento e decisões tomadas no momento certo.

 Voltando ao Qurultai, vejo no seu nome uma metáfora particularmente interessante.

 Há oito séculos esta palavra pertencia a um mundo político que há muito desapareceu da história. Hoje, designa uma instituição do Estado moderno. Entre estes dois pontos existe uma enorme distância, mas também um princípio importante em comum: um Estado deve ter a capacidade de se reunir em torno das questões do seu tempo e encontrar as suas próprias respostas.

A 23 de agosto, os cidadãos do Cazaquistão elegerão os deputados do novo Qurultai.

Para o próprio Cazaquistão será o início de uma nova etapa do desenvolvimento constitucional. Para os parceiros europeus, será mais uma oportunidade para olhar com maior atenção para um país que, ao mesmo tempo que renova as suas instituições de Estado, se encontra no centro de uma nova geografia da Eurásia.

O Cazaquistão não está perante uma escolha entre o passado e o futuro. A sua tarefa é utilizar o primeiro para construir melhor o segundo.

E talvez, seja precisamente por isso que uma palavra com raízes na história soe hoje tão atual.

Qurultai.

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