Uma geração sem chave de casa

Há estatísticas que medem mercados. E há estatísticas que medem o estado de um país. A idade a que os jovens portugueses conseguem sair de casa dos pais pertence à segunda categoria.
Rui Miguel Braga

Vice-presidente da Câmara Municipal do Barreiro

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Segundo o Eurostat, os jovens portugueses abandonam o agregado familiar, em média, aos 28,9 anos, enquanto a média da União Europeia se situa nos 26,2 anos. A diferença pode parecer reduzida. Não é. Representa quase três anos de autonomia adiada, de decisões suspensas e de projetos de vida colocados entre parênteses.

O debate público interpreta este fenómeno quase sempre da mesma forma: faltam casas, as rendas são elevadas e os preços tornaram-se incomportáveis. Tudo isso é verdade. Mas é apenas a superfície do problema.

A crise da habitação já deixou de ser apenas uma crise do mercado imobiliário. Tornou-se uma crise da emancipação de uma geração.

Quando um jovem não consegue sair de casa dos pais, não está apenas a adiar uma mudança de morada. Está a adiar a possibilidade de constituir família, de aceitar uma oportunidade profissional noutra cidade, de construir património, de assumir riscos ou, simplesmente, de organizar a sua vida com independência. A autonomia residencial é uma das primeiras expressões da autonomia pessoal. Quando falha, tudo o resto tende a ser adiado.

É por isso que este não é apenas um problema social. É também um problema económico.

O economista Edward Glaeser demonstrou que as economias mais dinâmicas dependem da capacidade de atrair e fixar pessoas. Mas ninguém fixa talento onde não consegue viver. Uma habitação inacessível reduz a mobilidade laboral, limita a produtividade e enfraquece a competitividade. O mercado da habitação deixa, assim, de ser apenas um setor da economia para se transformar numa das suas infraestruturas essenciais.

A resposta, contudo, não se encontra numa única medida, nem numa sucessão de programas avulsos. O problema resulta da combinação de vários bloqueios: oferta insuficiente, processos de licenciamento demasiado lentos, custos crescentes de construção, salários incapazes de acompanhar o preço da habitação e um enquadramento regulatório que muda com demasiada frequência para gerar confiança e investimento.

Douglass North recordava que o desenvolvimento económico depende da qualidade das instituições. A observação continua atual. Não basta anunciar políticas de habitação; é necessário construir instituições capazes de lhes dar execução com previsibilidade, eficiência e continuidade. A habitação exige tempo, investimento e estabilidade. Nenhum destes fatores convive bem com a incerteza permanente.

Mas talvez exista uma consequência ainda mais profunda:

Uma sociedade começa a envelhecer antes de envelhecer demograficamente. Envelhece quando os seus jovens deixam de acreditar que conseguirão construir uma vida autónoma no horizonte expectável. Quando trabalhar já não garante a possibilidade de sair de casa dos pais, a questão deixa de ser apenas económica. Passa a ser uma questão de confiança coletiva.

Discutimos frequentemente a baixa natalidade, a emigração qualificada ou a dificuldade em reter talento. Raramente percebemos que estes fenómenos partilham uma mesma raiz: a incapacidade de oferecer a uma geração as condições mínimas para iniciar o seu próprio percurso.

A habitação não é apenas um direito constitucional, nem apenas um ativo económico. É a plataforma sobre a qual se constrói quase todo o restante projeto de vida. Quando essa plataforma falha, não se atrasam apenas escrituras ou contratos de arrendamento. Adia-se a autonomia, fragiliza-se a mobilidade social e empobrece-se o futuro coletivo.

O debate público tende a discutir sintomas. A responsabilidade institucional exige compreender as estruturas. O verdadeiro custo da crise da habitação não se mede apenas em euros por metro quadrado. Mede-se no tempo de vida que uma geração é obrigada a adiar.

No fundo, o problema já não é apenas que os jovens demorem mais tempo a sair de casa dos pais. O verdadeiro problema é que Portugal está a demorar demasiado tempo a entregar-lhes a chave da sua própria vida.

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