A escolha do novo Conselho de Administração da RTP parece um thriller político. Há protagonistas, interesses cruzados, jogos de bastidores, ameaças de veto e até a possibilidade de mudar as regras a meio do jogo. Só falta saber como acaba mesmo.
O processo começou ontem, com as audições das quatro duplas a concurso, mas está longe de ser linear.
O CGI [Conselho Geral Independente], na sua actual composição, decidiu chamar a si a escolha do novo CA, apesar de saber que a sua própria composição irá mudar em breve. O ministro Leitão Amaro não esconde as suas preferências, ontem mesmo estampadas no Correio da Manhã. Parece conhecer antecipadamente o calendário do relatório final da IGF e, aparentemente, admite recorrer ao veto caso a escolha do CGI não corresponda às suas expectativas, o que coloca em causa a autoridade do CGI.
E há ainda uma terceira personagem, que como nos enredos de Agatha Christie ou Hercule Poirot, é uma personagem menor, mas esta implicada na trama: o Secretário-Geral do CGI, Pedro Braumann, o homem sombra, sem direito de voto na decisão, mas que, sem que se perceba bem porquê, participará nas audições que hoje se iniciam e, mais estranho ainda, terá confidenciado a vários outros funcionários da RTP, que o actual concurso pode cair por terra e substituído por um novo, a realizar mais adiante.
Demasiadas dúvidas, demasiadas interferências e demasiados sinais de que o processo poderá estar condicionado por interesses que nada têm a ver com o mérito dos projectos ou com o futuro da RTP.
A RTP merece um processo transparente, independente e credível. Não um thriller de bastidores, cujo desfecho parece depender de quem tem mais influência para escrever o último capítulo.