PSD: quando o "ruído menor" começa a soar a sirene

Bruno Vasconcelos

Consultor de Sistemas de Informação, professor universitário e vereador do PSD na Câmara Municipal do Seixal

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Há uma frase que vai perseguir Luís Montenegro até ao fim do seu mandato, seja ele curto ou longo. Perante as críticas de Pedro Passos Coelho, o líder do PSD respondeu que o partido estava "imperturbável face a ruídos menores". Foi em maio. Quatro meses depois, o Barómetro DN/Aximage vem dizer-lhe, com a delicadeza de um camião de mudanças, que o ruído, afinal, não era assim tão menor: quase dois terços dos portugueses acham que o país ficaria melhor com um novo Governo. Quando o eleitorado começa a falar a mesma língua dos críticos internos, já não se trata de ruído. É a banda a afinar os instrumentos antes do funeral.

Convém dizer isto com toda a seriedade que o momento merece e nenhuma da complacência com que o PSD parece tratá-lo: um partido que geriu Portugal com a legitimidade de idas recentes às urnas está, ao fim de pouco mais de dois anos, a repetir em tempo recorde o desgaste que ao PS levou mais de uma legislatura inteira a acumular. Há qualquer coisa de tragicamente eficiente nisso. Se há um departamento em que a AD bateu mesmo as metas, foi no da rapidez com que delapidou o crédito de confiança.

E o desgaste não vem só das sondagens, vem de dentro. Pedro Santana Lopes já fala num "circo permanente" a propósito do ministro Luís Neves, cujas explicações sobre os contratos da ConstruBarcelos convenceram muito pouca gente (nas sondagens de verão, quase três quartos dos inquiridos achavam-nas insuficientes). Pedro Duarte, vice-presidente do partido, admite que o caso "tem de ser esclarecido", numa formulação que é ao mesmo tempo uma defesa tímida e uma acusação por omissão. E o mais revelador: a mesma direção que foi ao ataque para proteger o ministro da Educação, Fernando Alexandre, quando este esteve em maus lençóis, ficou estranhamente calada quando foi a vez de Neves. Um partido não precisa de dizer em comunicado que já desistiu de alguém, basta deixar de lhe dar colo publicamente. Isso também é uma sondagem, só que interna.

Chegamos assim à encruzilhada que o próprio PSD teima em não olhar de frente. Se as legislativas fossem já e o resultado confirmasse a tendência, o país teria PS e Chega a disputarem o primeiro lugar e pouco importaria qual dos dois viesse a ficar à frente, dado que o problema do PSD é estruturalmente o mesmo. E aí só há duas portas, e as duas têm fogo do outro lado.

A primeira é cair na tentação do bloco central: aliar-se ao PS "pelo bem da democracia" e impedir o Chega de governar. É a porta que mais facilmente se justifica em comunicado e mais dificilmente se justifica às bases, que passam a ver o partido a governar precisamente com quem sempre disseram combater. Nessa versão, o PSD não desaparece de um dia para o outro, mas dilui-se, devagar num centrão sem identidade própria e entrega ao Chega o monopólio da oposição "verdadeira", que é o combustível de que qualquer populismo mais precisa.

A segunda porta é respeitar o resultado das urnas e deixar o Chega governar. Coerente do ponto de vista democrático, devastadora do ponto de vista partidário: uma fatia do eleitorado social-democrata mais à direita, que já ali está a espreitar há anos, atravessa a rua sem olhar para trás. O PSD fica reduzido a bengala eleitoral de um governo que não é seu, à espera de ser dispensado assim que deixar de fazer falta.

Repare-se: não há terceiro caminho escondido, nem um final feliz por descobrir. As duas hipóteses fecham o partido entre duas forças que crescem exatamente à custa do espaço que o PSD tinha como garantido. E o mais desconfortável para quem ainda hoje despacha estas sondagens como "fotografias do momento" é que o problema não nasceu do inquérito, nasceu antes, na bolha de São Bento e do Largo do Rato, na gestão de crises que trata sintomas como incómodos de comunicação, na surdez a avisos que vinham de dentro de casa e não de comentadores hostis. Quem diagnostica cedo e ignora o diagnóstico não pode depois fingir surpresa com o prognóstico.

Nada disto está gravado na pedra. Sondagens não são eleições e o calendário político português tem o hábito de se rir de quem tenta antecipá-lo ou adivinhá-lo. Ainda assim, os partidos não morrem sempre por perderem eleições; morrem, muitas vezes, por perderem a capacidade de imaginar um cenário em que ainda ganham alguma coisa. É esse o retrato que este barómetro devolve ao PSD: não o de um partido a caminho da derrota, mas o de um partido a ficar sem boas razões para continuar a existir como é. Isso, ao contrário de uma sondagem, não se corrige em quinze dias de campanha.

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