Portinho da Arrábida, quando a praia se transforma em Badoca Park

Pedro Vieira

Presidente do Clube da Arrábida

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Quando em pleno verão, na praia do Portinho da Arrábida, os veraneantes são obrigados a partilhar o areal com javalis, como se estivessem no Badoca Park, algo de errado se está a passar.

A imperdível reportagem da SIC de 7 de agosto tornou nacional aquilo que utentes, moradores e concessionários da Arrábida já sabiam há muito, os javalis aparecem cada vez mais nos areais e nas ruas de Setúbal sem que nada os impeça. As imagens capturaram a surreal realidade com javalis na praia entre toalhas, chapéus de sol, crianças a brincar, investidas a lancheiras, lixo espalhado e jardins destruídos na Baixa de Setúbal perante o desespero da autarquia e das inqualificáveis respostas do Sr. Diretor Regional do ICNF face à alarmante situação.

Após décadas de ausência, os javalis voltaram à Arrábida, como a todo o resto do território nacional, mas, aqui, vieram encontrar um habitat ideal para viver, onde o seu único atual predador, o homem, tem pouca margem de manobra para os controlar devido à densa vegetação na serra e à grande proximidade com centros urbanos.

Apesar destas condicionantes, segundo o ICNF, são legalmente abatidos dentro do Parque Natural da Arrábida entre 400 e 600 javalis por ano, sem que isso seja suficiente para manter os seus números em níveis sustentáveis. Segundo peritos, a avaliar pelo número de abates, poderemos estar perante uma população de, mais ou menos, 3000 javalis, embora não existam contagens oficiais.

A falta de alimento natural para uma população que não para de crescer obriga os animais a encontrar alimento fácil em caixotes de lixo, restos de piqueniques e sacos abandonados. A fronteira entre animal selvagem e espaço humano deixou de ser equilibrada e transformou-se numa dor de cabeça para a população. Além do perigo que representam devido à sua natureza selvagem, os javalis são portadores de diversas zoonoses, como a brucelose e tuberculose, por exemplo, transportam parasitas como carraças, sendo igualmente um problema para a circulação automóvel, (o ICNF acaba de divulgar que, a nível nacional, os javalis causam mais de 500 acidentes rodoviários por ano) e, por último, causam avultados estragos na agricultura.

Há quase uma década que a presença de javalis na Arrábida deixou de ser ocasional. O Clube da Arrábida, associação local constituída por residentes, utentes e comerciantes da zona do Portinho da Arrábida, trabalhou com o ICNF, a Associação Nacional de Produtores de Caça e a Direção-Geral de Veterinária num plano de ação para controlo dos javalis na Arrábida, entregue em 2017 à Câmara Municipal de Setúbal, numa altura em que os avistamentos de javalis eram ainda raros.

O plano apontava medidas sensatas como o controlo de densidades, melhor gestão de lixos, informação pública e articulação entre entidades e sociedade civil. Por alterações orgânicas dentro do ICNF e da própria Câmara, o plano nunca foi implementado, embora tenha contribuído para que houvesse uma maior agilidade na obtenção de credenciais para controlo de densidades de javalis o que, por si só, não é suficiente. Ainda se vai a tempo de atualizar e reativar esse plano.

O que se está a passar no Portinho da Arrábida e em Setúbal, não caiu do céu. Os avisos, reclamações e pedidos de ajuda dirigidos às autoridades e entidades locais duram desde a primavera, sem resposta. Infelizmente, como sociedade, continuamos a ter uma cultura reativa em vez de preventiva e, neste caso, como aliás, em todos os fenómenos naturais, as coisas não se resolvem por decreto: quando os problemas acontecem assistimos a desculpabilizações e terceirizações de responsabilidades bem patente na reportagem da SIC.

Controlar javalis não é declarar guerra à natureza, não é o fim do mundo, não é assassinar o Pumba ou o Bambi. É reconhecer que a conservação exige gestão ativa, conhecimento técnico e coragem política. Um parque natural é um território vivo e frágil, atravessado por interesses humanos, equilíbrios ecológicos e responsabilidades públicas que, como agora foi anunciado pela sra. ministra do Ambiente, são geridos de forma partilhada entre ICNF e autarquias.

Quando uma espécie cresce descontroladamente, a não-intervenção é também uma forma de intervenção, normalmente a pior. Contudo, a reunião de dia 13 de agosto entre ICNF e Câmara Municipal de Setúbal para estudar formas de mitigar o problema é, finalmente, uma boa notícia e um emendar de mão correto perante a inercia dos últimos anos. Se alguém sabe lidar com o problema, são os técnicos do Parque Natural da Arrábida que, se devidamente apoiados e, com colaboração da Câmara, podem ter um contributo enorme na resolução deste problema.

A Arrábida não precisa de situações fora de controlo e de pânicos desnecessários, precisa de seriedade, coordenação e prevenção através de campanhas para impedir que se alimente a fauna selvagem, recolha de lixo adequada, monitorização, controlo populacional seletivo e articulação permanente entre entidades e associações locais.

Os javalis não são um problema único na Arrábida, são em todo o território nacional. A responsabilidade da atual situação pertence a quem viu o problema formar-se e preferiu adiar decisões, deixando a indignação, agora, televisiva tornar-se viral. Os javalis que a reportagem da SIC filmou no Portinho da Arrábida e em Setúbal, há muito que deveriam ter sido abatidos através dos mecanismos legais que existem, como são no resto da serra, sem discussão, sem alarmismos e sem medos políticos, como mandaria o bom senso. É a segurança de pessoas e higiene pública que está em causa, com o Estado a falhar numa das suas obrigações básicas, a proteção de cidadãos. Esperemos que finalmente haja mudança.

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