No primeiro trimestre deste ano, cada utilizador de internet móvel em Portugal consumiu, em média, 18,5GB por mês – quase um terço mais do que um ano antes. Segundo a Anacom, o tráfego total de dados móveis cresceu 39% e, no mesmo período, as chamadas de voz recuaram e as SMS caíram cerca de 20%. Os números contam uma história simples: o telemóvel deixou de ser, antes de mais, um aparelho para falar. Tornou-se a principal porta de entrada na vida digital.
Esta mudança obriga a uma pergunta que o setor tem evitado: faz sentido continuar a vender dados como vendíamos minutos e mensagens, como um consumo a racionar? Ou devemos tratá-los como aquilo em que se tornaram – uma infraestrutura pessoal básica, tão essencial no dia a dia como outros serviços de que ninguém abdica?
Quando surgiram, os dados móveis eram um extra: serviam para aceder às redes sociais numa viagem ou responder a uma mensagem fora de casa. Hoje sustentam boa parte da rotina. Trabalhamos com documentos na Cloud e entramos em videochamadas fora do escritório, orientamo-nos na cidade em tempo real, pagamos um café aproximando o telemóvel do terminal e recorremos a ferramentas de Inteligência Artificial para escrever, traduzir ou organizar o dia. Não fazemos apenas mais coisas no telemóvel; fazemos através dele coisas que antes funcionavam de forma completamente diferente.
A primeira consequência é evidente. Quando os dados serviam sobretudo para entretenimento, controlar o consumo era razoável. Hoje, essa preocupação tornou-se um obstáculo: quem depende do telemóvel para trabalhar, deslocar-se, pagar ou aceder a serviços públicos não pode passar o mês a contar os gigabytes que lhe restam. Por isso, os tarifários com grandes volumes de dados deixaram de ser um luxo e passaram a responder a uma necessidade real.
A segunda consequência é menos discutida, mas igualmente importante. Se os dados são infraestrutura, o acesso a eles não pode depender de fidelizações de dois anos, nem de preços pensados para quem pode pagar mais. Para muitas pessoas – estudantes, trabalhadores deslocados, quem chegou recentemente ao país ou quem não tem internet fixa em casa –, o telemóvel é o primeiro e, por vezes, o único acesso à internet. Para elas, um plafond curto ou um contrato rígido não é um incómodo; é uma barreira à participação na vida digital.
O mercado português começou a mexer-se, com mais concorrência e ofertas mais generosas. É um passo positivo, mas não basta dar mais gigabytes. É preciso que o acesso seja simples, transparente e livre de compromissos longos, para que a liberdade de utilização não fique reservada a quem aceita ficar preso a um operador.
No fim, a pergunta relevante já não é quanto usamos o telemóvel, mas se conseguimos imaginar um dia sem ligação móvel. A maioria de nós não consegue. O setor deve tirar daí a conclusão óbvia: deixar de vender dados como um bem escasso e passar a tratá-los como aquilo que já são – um serviço essencial, acessível a todos, sem amarras.