O cancro como verdadeiro teste de esforço do sistema de saúde

José João Mendes

Presidente da Direção da Egas Moniz School of Health & Science

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Há uma tendência natural para avaliar um sistema de saúde pelo desempenho que revela nos casos mais simples: uma consulta marcada atempadamente, uma cirurgia de rotina bem-sucedida, um internamento sem complicações. A verdadeira robustez, porém, não se mede pela resposta ao previsível. Mede-se pela capacidade de responder às situações complexas, aquelas que mobilizam todos os recursos e põem à prova a organização do sistema e a sua capacidade de resposta.

Entre as doenças que mais testam esta capacidade está o cancro. Da prevenção ao rastreio, do diagnóstico ao tratamento, da reabilitação aos cuidados paliativos, o percurso oncológico atravessa praticamente todas as dimensões do sistema de saúde. Poucas condições obrigam tantos serviços a trabalhar em sequência, e poucas expõem tão claramente aquilo que acontece quando essa integração falha. É por isso que o cancro funciona, na prática, como um teste de esforço. Não avalia a excelência isolada de cada serviço, mas sim o trabalho em colaboração entre cada um.

Vale a pena olhar para o que cada etapa efetivamente testa. A prevenção testa a saúde pública e a literacia em saúde. O rastreio testa a capacidade de chegar às pessoas antes de existirem sintomas. O diagnóstico testa a capacidade de resposta do sistema. A referenciação testa a integração entre cuidados de saúde primários, hospitais e centros especializados. O tratamento testa a multidisciplinaridade e o acesso à inovação. A reabilitação testa a continuidade assistencial. Os cuidados paliativos testam a integração e a humanidade do sistema. E o seguimento a longo prazo testa a capacidade de acompanhar quem sobrevive. Em todas estas etapas, o tempo é um fator determinante. Em oncologia, não é apenas um indicador de eficiência administrativa, mas também clínica.

O relatório Global Status Report on Cancer 2026: the future we choose together, publicado em julho de 2026 pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em conjunto com a Agência Internacional de Investigação sobre o Cancro (IARC), documenta com particular clareza o peso do contexto socioeconómico nos resultados oncológicos. No cancro da mama, por exemplo, os dados apontam para uma sobrevivência a cinco anos de cerca de 87% entre as mulheres diagnosticadas em países de rendimento elevado, comparativamente com aproximadamente 42% nos países de rendimento mais baixo. O relatório revela ainda que apenas 28% dos países incluem um pacote mínimo de cuidados oncológicos nos respetivos sistemas de cobertura universal de saúde.

A geografia continua, assim, a ter um peso significativo nas probabilidades de sobreviver ao cancro. O verdadeiro teste de um sistema público não consiste apenas em conseguir oferecer tratamento de excelência, mas sim em fazê-lo com equidade. Portugal apresenta progressos assinaláveis neste domínio. A cobertura dos programas de rastreio tem aumentado de forma consistente, a Estratégia Nacional de Luta Contra o Cancro está alinhada com as prioridades europeias e o país dispõe de profissionais e de centros de reconhecida qualidade. A competência técnica não está em causa. O que falta assegurar é a continuidade do percurso.

Os cuidados paliativos, por exemplo, constituem uma das dimensões mais exigentes desta resposta. A OMS estima que, dos 73 milhões de pessoas que necessitam anualmente destes cuidados, apenas cerca de 14% têm acesso ao mesmo. Em Portugal, onde a população é muito envelhecida e o cancro assume uma preocupação crescente no setor da saúde, existe também margem para reforçar a resposta das equipas comunitárias de suporte, o apoio domiciliário, a formação em cuidados paliativos e a integração precoce destes cuidados no percurso oncológico, e não apenas na sua fase final.

Até porque o impacto do cancro estende-se muito para além da saúde. O relatório da OMS estima que o peso económico global da doença represente, até 2050, o equivalente a um imposto anual de aproximadamente 0,55% sobre o PIB mundial, ao qual acresce o encargo direto suportado pelas famílias. Melhorar a resposta ao cancro é, por isso, uma prioridade económica e social, e não apenas sanitária.

A inovação assume, por isso, um papel determinante. A medicina de precisão, a genómica, os biomarcadores e a inteligência artificial estão a transformar a deteção precoce e a decisão terapêutica. Nada disso, porém, compensa um diagnóstico tardio. De que serve dispormos de terapêuticas cada vez mais sofisticadas se o doente chega tarde ao momento em que essas terapêuticas fazem diferença? Além disso, importa também que a inovação tecnológica acompanhe a inovação organizacional, para que esta resposta cada vez mais personalizada não tenha o efeito contrário do esperado: aumentar, em vez de reduzir, as desigualdades existentes. Inovar em saúde não é apenas incorporar tecnologia. É reorganizar percursos.

Hospitais, universidades e centros de investigação devem, por isso, deixar de funcionar como universos separados e tornar-se antes parte de uma resposta integrada. Às universidades cabe uma responsabilidade crescente na produção de conhecimento, na formação de profissionais qualificados e na avaliação independente das políticas públicas que sustentam uma resposta mais equitativa ao cancro. Formar bem estes profissionais é, em si mesmo, um investimento em resiliência.

O cancro mostra-nos, talvez melhor do que qualquer outra doença, que um sistema de saúde vale tanto pela excelência dos seus profissionais como pela qualidade das ligações entre eles. Não basta diagnosticar bem, operar bem ou tratar bem se o percurso entre cada uma dessas etapas falhar. É na continuidade, no tempo de resposta e na equidade do acesso a cuidados de saúde que se mede a verdadeira robustez de um sistema. Porque, em oncologia, o custo da desarticulação não se mede apenas em eficiência perdida. Mede-se em oportunidades terapêuticas perdidas e, consequentemente, em vidas perdidas.

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