De acordo com os dados das Nações Unidas, a estimativa global atual aponta para cerca de 304 milhões de migrantes internacionais em todo o mundo em meados de 2024, o que equivale a 3,7% da população mundial. Este valor representa um aumento em relação aos cerca de 250 milhões registados em 2015.
Apesar do número crescente de migrantes internacionais, é importante notar que a mobilidade transfronteiriça continua a ser a exceção e não a regra; a maioria das pessoas continua a viver nos seus países de nascimento e a migração interna – deslocação dentro dos próprios países – é muito mais comum.
Quando olhamos para o debate público (e político) na Europa a migração surge no centro de (quase) todas as questões, apesar de, de acordo com o último Eurobarómetro, ser apenas o sétimo assunto que os cidadãos europeus consideram mais importante para a União Europeia.
No entanto, fica, muitas vezes, a ideia de que a Europa é o destino final de grande parte dos migrantes e de que os países europeus enfrentam fluxos migratórios de dimensão absolutamente extraordinária. Esta perceção, alimentada pelo destaque mediático dado às chegadas às fronteiras europeias, tende, contudo, a perder de vista a realidade global das migrações. Quando olhamos para os números e para a distribuição dos fluxos, encontramos uma realidade bem diferente: uma parte significativa das pessoas que migram não atravessa continentes nem tem a Europa como destino.
Vamos, então, a números: o corredor entre o México e os Estados Unidos continua a ser o maior do mundo, com cerca de 11 milhões de pessoas; o segundo maior é o que liga o Afeganistão ao Irão (mais de 3,7 milhões de migrantes), seguido pelo que liga a Síria à Turquia (mais de 3,5 milhões), composto principalmente por refugiados deslocados pela guerra civil na Síria. O corredor entre a Rússia e a Ucrânia ocupa o 4.º lugar, enquanto o 5.º maior corredor, da Índia para os Emirados Árabes Unidos, é composto principalmente por trabalhadores migrantes.
Além do corredor entre a Rússia e a Ucrânia, o principal corredor que inclui países europeus encontra-se em 17º lugar e é entre a Polónia e a Alemanha, países vizinhos.
Isso não significa que o número de imigrantes residentes na União Europeia não tenha aumentado; são cerca de 64,2 milhões em 2025, o que representa 14% da população total da UE, mas inclui todas as pessoas que vivem em alguma nação do bloco que não corresponde ao seu país de origem, ou seja, outros cidadãos europeus.
Relativamente aos refugiados, os dados indicam que o número global de refugiados caiu 3% em 2025, totalizando 41,6 milhões. Nove milhões aguardavam uma decisão sobre os seus pedidos de asilo até ao final de 2025. Um total de 36% destas pessoas foram acolhidas em apenas seis países e, destes, só um pertence à União Europeia – a Alemanha –, os restantes são a Colômbia, Turquia, Uganda, Irão e Chade.
Os países menos desenvolvidos concederam asilo a 9,4 milhões de refugiados e outras pessoas que necessitavam de proteção internacional em todo o mundo. Os países de rendimento baixo e médio acolheram 68% do total.
No final de 2021, e após a crise migratória de 2015-2016, o número de refugiados reconhecidos na Europa era inferior a 10% da população mundial de refugiados. A invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, fez com que esse número aumentasse para cerca de 20%. No entanto, desde 2024, que se regista uma diminuição no número de pedidos de proteção internacional na UE.
Os números não negam os desafios que a migração coloca à Europa, mas obrigam-nos a colocá-los na sua verdadeira dimensão. A migração é uma realidade global, complexa e multifacetada, mas está longe de ser um desafio europeu. A maioria dos migrantes permanece na sua região de origem, frequentemente em países vizinhos, e uma parte significativa dos refugiados é acolhida precisamente por países com menos recursos e menor capacidade económica.
Um política migratória que seja capaz de gerir fluxos de forma previsível e ordenada, garantir o controlo das suas fronteiras, assegurar o direito de asilo e, simultaneamente, criar vias legais e seguras para quem procura proteção ou melhores oportunidades é essencial, mas, por si só, não resolverá as causas que levam milhões de pessoas a abandonar os seus países.
E este será um desafio ainda maior nas próximas décadas. As alterações climáticas e a crescente frequência e intensidade de fenómenos extremos poderão agravar deslocações de população, sobretudo em regiões já marcadas pela pobreza, pela fragilidade institucional e pela desigualdade. Não bastará discutir como impedir que as pessoas cheguem, será necessário discutir porque são obrigadas a partir.
No final, a questão migratória é também uma questão de desenvolvimento. Combater a pobreza, reduzir as desigualdades entre países, investir em Educação, emprego, Saúde e adaptação às alterações climáticas e reforçar a capacidade dos países mais vulneráveis para enfrentarem crises é, a longo prazo, uma das políticas migratórias mais eficazes que podemos construir.