Do património histórico à experiência turística

Amancio López Seijas

Presidente do Grupo Hotusa

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Numa Europa dotada de uma extraordinária riqueza histórica e cultural, todos temos uma responsabilidade especial na forma como preservamos, valorizamos e transmitimos a identidade de cada destino.

Tenho defendido que as empresas do setor produtivo devem ter uma verdadeira vocação para ir além e exercer um impacto positivo na sociedade. No setor da hotelaria e turismo, isso significa fazer com que o turismo contribua para divulgar a cultura local, afirmando-se como uma verdadeira montra da própria cidade. É uma relação natural: o turismo beneficia da identidade dos destinos e, ao mesmo tempo, assume o compromisso de contribuir para a sua valorização.

Esta ideia é particularmente evidente no setor hoteleiro. Um hotel não pode ser apenas um espaço funcional. Tem de ser uma experiência. E essa experiência deve estar ligada ao local onde ocorre.

Neste sentido, os hotéis devem ser, de alguma forma, um reflexo das cidades onde se encontram. A arquitetura, a oferta cultural, a gastronomia e a relação com a comunidade local podem contribuir para que quem visita compreenda melhor o destino.

A própria estratégia de sustentabilidade de um hotel inclui a preservação do património histórico e artístico e o apoio ao comércio através do consumo de produtos locais, colocando o fator humano e a economia local no centro dessa dinâmica.

Esta relação entre património e turismo é também uma questão de diferenciação. Num mercado turístico cada vez mais competitivo, os destinos não podem depender exclusivamente de modelos uniformes. Cada cidade tem a sua própria história, património e cultura, e o setor hoteleiro deve saber reconhecer esses elementos e transformá-los numa parte relevante da experiência do visitante.

O turismo urbano deve, portanto, preservar a singularidade de cada cidade. Os hotéis podem ser uma montra da própria cidade e procurar elementos diferenciadores ligados à história, ao património e à cultura local.

Mas esta reflexão não se limita às grandes cidades. Existe um enorme potencial nos territórios que, apesar de serem menos conhecidos, possuem um património histórico, cultural e natural de grande valor. A recuperação deste património responde também à aspiração de transcender, contribuindo para diversificar a oferta turística, criar atividade económica e gerar novas oportunidades fora dos principais centros.

É aqui que o turismo pode também desempenhar um papel no desenvolvimento territorial. Contribuir para a economia produtiva através da recuperação de edifícios históricos para uma nova função, não é apenas a recuperação de um imóvel, mas sobretudo da identidade de um lugar. E quando esse processo cria emprego e gera riqueza real, o impacto ultrapassa claramente o próprio hotel.

Por isso, não existe uma oposição entre património e desenvolvimento. Pelo contrário. Com uma estratégia adequada, o património pode ser um dos principais motores de um turismo de maior valor acrescentado, capaz de gerar atividade económica e, simultaneamente, reforçar a identidade dos territórios.

O verdadeiro desafio reside em encontrar esse equilíbrio: dar uma nova vida ao património sem o desvirtuar; criar novas experiências sem transformar a cultura local num produto artificial; receber visitantes sem perder de vista aqueles que vivem o dia-a-dia nos destinos.

É nesse ponto que o património e o turismo deixam de ser duas realidades distintas.

O património confere identidade ao destino. O turismo pode ajudar a preservá-lo, a valorizá-lo e a partilhá-lo.

E a hotelaria, quando assume essa responsabilidade, deixa de ser apenas um local onde se dorme para se tornar parte da própria história do lugar.

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