Eu ia pela dupla Angine de Poitrine, Interpol e por Grace Jones. Tinha o programa organizado e Robbie Williams não fazia parte dele.
Quem insistiu foi o Alexandre Borges, meu querido amigo. Tem uma das vozes mais bonitas do mundo, imediatamente a seguir à de Leonard Cohen. Tenho um fascínio por pessoas com uma voz bonita. Adiante. O Alexandre queria muito ver Robbie Williams e nem a voz dele me impediu de revirar os olhos várias vezes.
Anuí.
Há momentos em que a amizade consiste precisamente nisto: aceitar um concerto que não queremos ver.
E ainda bem.
Robbie Williams entrou em palco com um sonoro “Hello, motherfuckers” e conquistou-me imediatamente. Há entradas que dispensam apresentações e preconceitos que demoram exatamente três segundos a cair.
O problema de termos opiniões muito bem arrumadas é este: de vez em quando aparece alguém e estraga-nos a decoração.
Robbie foi contando a sua vida. Falou dos excessos, das quedas, das fragilidades. Da mulher, dos filhos, do amor que lhes tem. Havia uma vulnerabilidade naquela maneira de falar que eu não esperava encontrar num palco daquele tamanho. Percebia-se bem aquilo que tantas vezes se diz sobre ele: não é apenas um cantor. É um entertainer. E a palavra, que às vezes parece diminuir quem canta, ali queria dizer exatamente o contrário.
Sabe aproximar. Talvez seja essa uma das coisas mais difíceis de fazer em palco: criar intimidade e transformar uma multidão num encontro que acede ao maravilhamento. Não sabemos o nome de quem está ao nosso lado, nem a vida que trouxe consigo. Mas, de repente, comove-nos a mesma coisa.
A certa altura, falou de Dolly Parton. Com reverência, ternura e uma quantidade apropriada de palavrões, declarou uma evidência universal: “Every fucking person loves Dolly Parton.”
É difícil não amar Dolly Parton.
Dolly conseguiu uma coisa extraordinária: passou décadas a ser olhada antes de ser escutada, sem deixar que a primeira coisa impedisse a segunda.
Houve quem quisesse reduzi-la a uma caricatura. O cabelo impossível, as unhas, o peito, as lantejoulas. O excesso deliberado de tudo. Durante anos, houve quem visse ingenuidade onde existia inteligência, frivolidade onde existia disciplina e uma boneca onde estava uma mulher que sabia perfeitamente o que estava a fazer.
Há qualquer coisa de profundamente feminista nesta autonomia. Não porque Dolly precise de caber num rótulo, mas porque uma mulher não deveria ter de escolher entre a aparência que deseja e o respeito que lhe é devido.
Ser mulher e decidir sobre a própria aparência continua, estranhamente, a ser entendido como uma provocação. Ser muito feminina também. Assumir o desejo sem pedir autorização. Ser inteligente sem vestir a inteligência da maneira que os outros consideram respeitável. Ganhar dinheiro, ser autora, ser dona da própria obra. E não pedir desculpa.
Sobretudo, não pedir desculpa.
Pensei depois em Gloria Steinem.
À primeira vista, pertencem a universos distantes. Uma construiu parte da sua imagem entre lantejoulas, saltos altos e canções country. A outra tornou-se um dos rostos mais reconhecíveis do movimento feminista americano, atravessando décadas de luta pela participação das mulheres na vida política e pública.
São menos distantes do que parecem.
Steinem encontrou um mundo que já tinha decidido o espaço que uma mulher podia ocupar. E recusou-se a aceitar a medida.
Confiante, frontal, intelectualmente incómoda, com uma identidade visual quase inconfundível, fez da presença uma forma de intervenção. Lutou para que as mulheres pudessem entrar onde, durante tanto tempo, tinham sido autorizadas só a assistir. Na política, nos jornais, nos lugares de decisão. No debate sobre os seus próprios corpos e sobre o destino das suas vidas.
Não bastava que algumas conseguissem entrar. Era preciso mudar as regras que mantinham tantas outras à porta.
É fácil esquecer isto quando herdámos as conquistas sem termos conhecido o mundo anterior a elas. Algumas liberdades tornaram-se tão familiares que quase apagaram da memória a luta que as tornou possíveis. Parecem-nos naturais. Como se tivessem estado sempre à nossa espera.
Há hoje mulheres que podem votar, estudar, trabalhar, ter património, divorciar-se, ocupar cargos políticos, escolher não se casar, escolher ter filhos ou não os ter e, depois de tudo isto, declarar com enorme convicção que o feminismo nunca lhes serviu para nada.
Irónico, não é? Beneficiar da estrada e desprezar quem a abriu.
Uma reclamou o direito das mulheres a estarem na sala onde as decisões são tomadas. A outra entrou na sala de saltos altos, escreveu as próprias canções, defendeu os direitos sobre a sua obra e recusou que alguém confundisse a aparência que escolhera com falta de inteligência.
Não fizeram o mesmo percurso. Nem é preciso que o tenham feito para reconhecer o que há de libertador em ambos.
Há muitas maneiras de fazer uma revolução.
Algumas levam cartazes.
Outras levam lantejoulas.
Foi talvez por isso que aquela homenagem de Robbie Williams a Dolly Parton me comoveu mais do que esperava. Ver aquela multidão a celebrar uma mulher que atravessou décadas sem aceitar que o olhar dos outros tivesse a última palavra sobre quem ela era, foi poderoso.
Robbie criou ali um espaço de comunhão. E a comunhão é uma coisa rara.
Durante hora e meia, rimos, cantámos, ouvimos histórias sobre amor, filhos, fracassos e sobrevivência. Eu, que tinha ido contrariada, dei comigo a pensar que aquele concerto foi um dos melhores momentos que vivi no festival.
Robbie Williams era, afinal, muito mais interessante do que eu julgava.
Dolly Parton sempre foi muito mais interessante do que muitos julgaram.
E Gloria Steinem passou uma vida inteira a explicar que as mulheres são muito mais do que aquilo que, durante séculos, decidiram que elas podiam ser.
É aqui que volto a encontrar-me com Parton e Steinem. Na recusa de aceitar uma versão de si próprias contada pelos outros. Na persistência necessária para continuar, mesmo quando seria mais fácil corresponder ao que se esperava delas.
Incomodaram.
E são deslumbrantes por isso.
Dolly com as lantejoulas. Gloria com os óculos de aviador. Nenhuma obrigada a parecer-se com a outra para merecer ser levada a sério.
Durante demasiado tempo, pediu-se às mulheres que não incomodassem.
Ainda bem que tantas continuam a desobedecer.