Apostas online - entre o vício e a vontade que Portugal ganhe o Mundial - quem está em risco?

Ivone Patrão

Professora do Ispa – Instituto Universitário

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Os jovens, entre os 18 e os 34 anos, do sexo masculino, vão estar em maior risco nesta fase do Campeonato do Mundo de Futebol da FIFA (entre 11 de junho e 19 de julho). Esta é a faixa etária que mais realiza apostas online, segundo dados da investigação em diferentes países e, também, do III Inquérito Nacional ao Comportamento Aditivo em Portugal, publicado pelo ICAD em 2024.

O que vão fazer estes jovens adultos neste próximo mês? A estudar para os exames de entrada no ensino superior, para os exames do seu curso universitário, na procura activa de emprego, a tentar um estágio ou uma melhor posição no trabalho, ou a casar-se, ou a pensar ter um filho.

Todas estas situações podem ter associado algum nível de ansiedade, quer para ter a melhor performance, quer por haver preocupação em conseguir um bom resultado no final, ou até pela necessidade de income financeiro.

Serão as apostas online desportivas uma solução?

Para quem aposta é um verosímil: Sim! Acreditam que é pelas apostas que vão ter boas sensações (sensation seeking), e anular a ansiedade ou algumas frustrações vividas, ou até que vão conseguir um bom resultado económico para fazer face às suas despesas reais.

Sabemos, desde já, que nesta época de Mundial haverá um aumento da frequência das apostas online, que podem ser motivadas pela pressão social dos pares, pelo patriotismo, pela publicidade ou pela percepção de ter um bom conhecimento desportivo, o que aumenta a ilusão de controlo.

A experiência, no contacto clínico ou formativo, com os jovens permite concluir que se juntam, em casa uns dos outros, ou noutros locais para se desafiarem a apostar em grupo. Há quem colecione o dinheiro de todos, para fazer uma única aposta. Há quem deixe de comer, para ter dinheiro para as apostas. Há quem deixe de pagar as propinas. Há quem gaste o vencimento. Há quem faça empréstimos. Há quem fique com dívidas. No calor do momento, com a possibilidade de apostar com o jogo a decorrer (live betting), num ambiente digital de acesso fácil, com um telemóvel na mão, muitas vezes com ofertas de bónus, não apostam só uma vez, fazem apostas sucessivas, até porque há a necessidade de recuperar o dinheiro perdido. A maioria das vezes perdem. O lucro consistente e ao longo do tempo é muito raro.

É importante estarmos atentos aos jovens adultos, do sexo masculino, à pressão dos pares, e àqueles que acreditam que Portugal ou outra selecção vai ganhar o Mundial e, como tal, vão apostar recorrentemente ao vivo (por exemplo, no número de golos, em quem marca o primeiro golo, no número de cantos, no resultado ao intervalo). Mas, também é necessário olharmos para quem é: mais impulsivo, está a passar um momento de maior vulnerabilidade psicológica (sintomatologia ansiosa e/ou depressiva), já tem um histórico de outras dependências (por exemplo, o álcool, os videojogos), tem maior isolamento social, alterações na higiene do sono (muitas das apostas para recuperar a perda acontecem em horários noturnos) e, claro, quem tem acesso a dinheiro de forma facilitada e rápida.

A diferença entre um jogador recreativo e um jogador patológico está na capacidade de controlo, na frequência, na intensidade e nas consequências do comportamento de apostar. Um jogador recreativo aposta por entretenimento, define tempo e dinheiro investido, não precisa de apostar para se sentir bem, não persegue perdas, não esconde o comportamento, e as apostas não prejudicam o estudo, o trabalho, nem a gestão das relações, nem das finanças.

É importante não normalizar a publicidade e o discurso dos influencers, uma vez que as apostas não são uma actividade de baixo risco.

Das “casas de apostas” legais até ao mundo das “plataformas ilegais”, não basta só a autoexclusão, é necessário estarmos atentos aos perfis de risco. No fim do dia, não queremos mesmo perder, nem a nossa saúde mental, nem a vida!

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