Por que é que algumas crianças sabem a resposta em casa e parecem esquecê-la quando estão perante um teste? A explicação pode estar muito para além da falta de estudo.
"Eu não sei fazer!" é uma frase que muitos pais já ouviram.
Por vezes, aparece perante uma ficha de Matemática, outras vezes surge quando a criança olha para um problema que, aparentemente, deveria conseguir resolver. O lápis fica parado, a criança começa a mexer-se na cadeira, pede ajuda, irrita-se ou simplesmente desiste. O mais curioso é que, pouco tempo antes, tinha conseguido resolver exercícios semelhantes.
O que aconteceu?
A resposta mais fácil é dizer que a criança não estudou o suficiente. Ou que tem dificuldades a Matemática. Ou, pior ainda, que "não tem jeito para números".
Mas a Psicologia da aprendizagem mostra-nos que a questão pode ser bastante mais complexa. Em algumas crianças, o problema não começa no número, começa com o medo de errar, que acaba por comprometer o próprio raciocínio.
Vamos chamar-lhe ansiedade matemática. Um fenómeno que vai muito além do gostar ou não da disciplina, estudado cientificamente e que se caracteriza por sentimentos de tensão, preocupação ou desconforto perante situações que envolvem Matemática.
Inclusivamente, uma criança que gosta de Matemática pode sentir ansiedade perante um teste.
Porquê? Porque resolver um problema matemático exige recursos mentais.
É necessário compreender o que está a ser pedido, manter informação na memória de trabalho, escolher uma estratégia, realizar os cálculos e acompanhar o próprio raciocínio.
Quando uma parte desses recursos é ocupada por pensamentos como "vou errar", "não consigo", "sou mau a Matemática" ou "os outros vão acabar primeiro", sobra menos capacidade disponível para pensar no problema.
Uma grande meta-análise, que reuniu 177 estudos e mais de 900 mil participantes, encontrou uma associação significativa entre ansiedade matemática e desempenho, identificando a memória de trabalho como um dos mecanismos envolvidos nesta relação. Isto ajuda a explicar um fenómeno que confunde muitos pais: a criança pode não ter esquecido aquilo que aprendeu. Pode simplesmente estar, naquele momento, com dificuldade em aceder ao conhecimento de que dispõe.
Contudo, nem sempre é ansiedade. É importante fazer esta distinção.
Seria um erro transformar qualquer dificuldade matemática num problema emocional. Há crianças que bloqueiam porque as suas bases matemáticas não estão suficientemente consolidadas.
A aprendizagem da Matemática é cumulativa. Uma criança que não compreendeu bem quantidades, relações entre números, valor posicional ou operações básicas pode sentir dificuldades crescentes à medida que os conteúdos avançam.
É semelhante a tentar construir um edifício sobre uma fundação incompleta.
Quando aparecem problemas mais complexos, a criança tem de utilizar simultaneamente conhecimentos que ainda não domina. O esforço aumenta. Os erros tornam-se mais frequentes. A confiança diminui.
E pode começar um ciclo difícil de interromper: dificuldade, erro, insegurança, ansiedade, menor concentração, novo erro e maior dificuldade.
Por norma, as crianças não gostam porque não percebem. Por isso, quando uma criança bloqueia perante a Matemática, a pergunta que se impõe é: "O que é que ela ainda não compreendeu?"