A tinta da paz contra a armadilha do confronto

Valentino Viegas

Historiador e escritor

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Se a Heródoto (484–425 a.C.) devemos a certidão de nascimento da História, a Tucídides (460–400 a.C.) cabe o mérito de lhe ter moldado a espinha dorsal científica e racional.   

Historiador e general na Grécia Antiga, ele não foi um mero cronista; foi testemunha ocular e estratega na devastadora Guerra do Peloponeso. Na sua monumental História da Guerra do Peloponeso, dividida em oito volumes, Tucídides dissecou os factos, as causas e as repercussões do conflito com um rigor e uma imparcialidade cirúrgicos. A sua verdadeira revolução conceptual foi expulsar os deuses do tablado: a história, para ele, era o resultado estrito da acção, das falhas e das ambições humanas.

Séculos mais tarde, essa mesma mundividência clássica ecoou numa cimeira de superpotências. Xi Jinping, presidente da República Popular da China, evocou o historiador grego diante de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos.

A pergunta impõe-se: por que razão o líder de uma civilização milenar, herdeiro de uma matriz cultural radicalmente diferente da Ocidental, escolheria um palco americano para citar um general da Grécia Antiga?

O líder chinês sabe que os alicerces do Ocidente assentam no pensamento clássico grego e na matriz judaico-cristã. Ao trazer à colação a “Armadilha de Tucídides” – o conceito politológico que ilustra a tendência, quase inevitável, para o conflito quando uma potência emergente ameaça o estatuto da potência dominante –, ele não quis apenas fazer erudição.

Pretendeu pôr a nu uma constante antropológica que nos persegue, desde a aurora dos tempos. Mais do que um aviso diplomático, foi uma auto-afirmação explícita: o rival já não é o espectro soviético do século passado, mas sim a China contemporânea, cujos destinos ele próprio comanda como presidente, secretário-geral do Partido Comunista e presidente da Comissão Militar Central.

No passado helénico, foi o crescimento meteórico de Atenas que instilou um medo paralisante em Esparta, a potência hegemónica de então. À época, tal como hoje se observa em tantos gabinetes e comentadores, a diplomacia foi preterida em favor da paranóia, da desconfiança e da resignação perante uma guerra dita inevitável. Esse pânico mútuo arrastou as duas Cidades-Estado para três décadas de um conflito que estilhaçou o mundo grego.

Analisando esta mecânica do confronto, o cientista político Graham Allison, na sua obra Destinados à Guerra, estudou 16 casos históricos, ocorridos nos últimos 500 anos, em que uma força ascendente desafiou o statu quo. O veredicto é sombrio: em 12 ocasiões o desfecho foi a guerra; em apenas 4 o desastre militar foi evitado.

Como humanista convicto, recuso a inevitabilidade da força. Importa, por isso, resgatar da história esses quatro raros triunfos da cultura do entendimento:

1.    Portugal e Castela (finais do século XV):

Portugal detinha o monopólio das rotas marítimas e da expansão global quando viu erguer-se a vizinha Castela. O embate iminente foi travado, por uma diplomacia preventiva, sob a égide da Igreja Católica. O resultado foi o Tratado de Tordesilhas (7 de Junho de 1494), que traçou um meridiano a 370 léguas a oeste de Santo Antão (Cabo Verde). O mundo extra-europeu foi partilhado – o Oriente para Portugal, o Ocidente para Castela –, trocando-se as armas pela sabedoria da tinta da paz.

2.    Reino Unido e Estados Unidos (finais do século XIX):

O Império Britânico governava os mares, mas assistia à ascensão económica e militar imparável dos Estados Unidos. Em vez de escolher a contenção bélica, Londres, valorizando a partilha da língua e da cultura, optou pela acomodação estratégica. Os britânicos cederam a primazia no hemisfério Ocidental e transferiram para Washington o controlo exclusivo do futuro Canal do Panamá, resolvendo litígios territoriais na mesa das negociações.

3.    Estados Unidos e União Soviética (Guerra Fria – meados do século XX):

A ordem mundial, pós-Segunda Guerra Mundial, colocou a superpotência americana frente a frente com o expansionismo ideológico e militar soviético. Apesar das guerras por procuração e de momentos de vertigem, como a Crise dos Mísseis de Cuba, o confronto directo foi evitado pelo paradoxo da dissuasão nuclear. O fantasma da destruição mútua assegurada forçou a manutenção de canais diplomáticos permanentes, tratados de desarmamento e o estabelecimento do "telefone vermelho".

4.    Reino Unido/França e Alemanha (Pós-1990):

A queda do Muro de Berlim e a subsequente reunificação alemã fizeram renascer o gigante demográfico e económico, no coração da Europa, despertando velhos fantasmas em Paris e Londres. O conflito potencial foi neutralizado pela integração da nova Alemanha em instituições multilaterais como a NATO e a União Europeia. Ao adoptar o euro e ao abdicar de ambições militaristas unilaterais, a Alemanha converteu antigos rivais históricos em parceiros de destino.

Contudo, a Armadilha de Tucídides não se circunscreve aos mapas geopolíticos. Trata-se de um conceito macroscópico perfeitamente aplicável às microdinâmicas da nossa existência quotidiana: às relações amorosas, ao desporto de alta competição, ao ambiente corporativo e ao próprio desenvolvimento pessoal.

Na raiz do comportamento humano habita o mesmo pânico ancestral: o medo de perder relevância, ou estatuto, quando alguém, ao nosso lado, floresce e cresce. Vemo-lo na fricção gerada entre pais e filhos, no ciúme entre irmãos, na tensão silenciosa entre o gestor sénior e o jovem talento recém-licenciado, ou no balneário, onde o atleta consagrado vê a sua titularidade ameaçada pela irreverência da nova geração. Manifesta-se sempre que surgem novas paixões, promoções ou caminhos de sucesso alheios.

De todos estes combates, porém, o mais complexo é aquele que travo na minha própria intimidade. Diariamente, preciso de gerir a fronteira entre o meu Eu Actual – a potência dominante, instalada no conforto e na segurança dos velhos hábitos –, e o meu Eu Futuro, essa força emergente que anseia pela ruptura e pela mudança de vida.

Se olharmos para a natureza, a afirmação da dominância no reino animal é vital para a sobrevivência, para a disputa do território e para a perpetuação da espécie. No entanto, o mundo animal ensina-nos que a força bruta é o último recurso; a fauna recorre a rituais de intimidação e exibições de estatuto precisamente para mitigar o risco de ferimentos fatais. Há uma grande sabedoria biológica na contenção.

Esta harmonia natural faz-me recuar no tempo e na geografia. Lembro-me da minha infância em Goa. Naqueles dias, eu exercia uma liderança natural entre o meu grupo de amigos. Mas o Flávio Azevedo, a quem chamávamos Favuto, deu um pulo no crescimento.

O ecossistema da rua alterou-se. Movidos por essa intriga primitiva que exige hierarquias, os outros rapazes empurraram-nos para uma briga: queriam ver quem mandava. Andámos ali a trocar socos e pontapés, numa fúria cega, até que o grito soberano de um adulto nos separou. Eu chorava de raiva e dor; o Favuto tinha o rosto encarnado e as lágrimas a sulcarem-lhe as bochechas. Minutos depois, despidos daquela encenação biológica, regressámos a casa abraçados, como sempre fazíamos.

Se a infância nos salva pela pureza do afecto, a maturidade exige que nos salvemos pela lucidez da diplomacia. Da gestão das nossas pequenas neuroses diárias aos gabinetes presidenciais, onde se desenha o destino do planeta, o desafio humano permanece imutável: é imperativo desarmar o medo antes que ele nos destrua.

Espero, com profunda convicção, que os líderes que hoje governam o mundo tenham a audácia de parar as hostilidades. Que compreendam, a tempo, que a sobrevivência da nossa civilização depende da coragem de rasgar o guião da força e da fatalidade. Contra a velha armadilha do confronto, que a história teima em repetir, o verdadeiro triunfo da inteligência humana continuará a ser aquele que se escreve com a tinta da paz.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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