A tecnologia também ajuda a cuidar

Discute-se muito se a tecnologia nos vai afastar, mas a realidade da telessaúde mostra o oposto. Quando as ferramentas digitais são usadas para encurtar distâncias e simplificar a vida, a tecnologia não nos está a isolar. Está a cuidar.
Maria Guilhermina Moutinho de Almeida

Médica de Medicina Geral Familiar | Membro do Conselho da Secção Regional Sul da Ordem dos Médicos

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Como médica de família, o maior desafio que encontro é, sabendo como tratar a pessoa com doença, convencê-la a aderir ao tratamento, seja ele qual for.

O nosso trabalho passa por explicar a doença, os efeitos que tem no presente e que pode vir a ter no futuro, e quais os benefícios da terapêutica farmacológica e não-farmacológica.

Falamos sistematicamente em mudanças de estilo de vida, cuidados com a alimentação, exercício físico, hidratação frequente, psicoterapia, mas a fisioterapia é, para já, das poucas terapêuticas não-farmacológicas que conseguimos rapidamente convencer que é realmente eficaz. É raro o doente da minha consulta que não reconhece a necessidade e a eficácia da reabilitação física estruturada.

O principal entrave que encontro é a acessibilidade. Quantas vezes os doentes recusam, à partida, por saberem que não havia vagas nos próximos meses, quantas vezes torcem o nariz por não terem clínicas próximas da sua casa, quantas vezes desistem a meio por não terem como deslocar-se ou por ser impossível encaixar os tratamentos no horário de trabalho…

O projeto de telerreabilitação da Sword Health vem pioneiramente mudar o paradigma: cuidados de saúde no conforto da sua casa.

Todas as limitações apresentadas deixam assim de se colocar. Não há necessidade de boleias, não há problemas de vagas, a clínica é a própria casa, o horário pode ser depois de assegurar que toda a casa está arrumada e as crianças a dormir.

Colocar-se-ão questões sobre o acompanhamento ser feito por uma máquina e desvirtuar o papel do terapeuta. Percebo o receio para quem não compreenda o processo, mas a verdade é que esta forma de tratar permite ter dados minuciosamente registados, contagens automatizadas, gestos corrigidos na hora, e exercícios que posteriormente são avaliados e adaptados de sessão para sessão, já que as mesmas são monitorizadas individualmente por um fisioterapeuta que interpreta os dados e faz os ajustes necessários para o dia seguinte.

A fisioterapia tradicional será sempre necessária e terá também outro enquadramento para aqueles utentes que necessitam de maior contacto físico, mas a telereabilitação surge no campo como um complemento àquilo que é feito nas clínicas convencionadas e que permite chegar a muito mais pessoas pelas limitações previamente mencionadas. Com este método inovador, já amplamente estudado dentro e fora do nosso país, o tratamento passa a poder começar poucos dias depois da prescrição e a poder ser realizado a qualquer hora no conforto do próprio lar.

É verdade que a Inteligência Artificial vem carregada de medos inspirados pelos filmes e séries de ficção científica que vemos na televisão, com robôs a dominar o mundo, mas o que temos de pensar é que a tecnologia veio ajudar e complementar o trabalho humano. Veio facilitar o dia a dia das pessoas. No caso da medicina, há processos que os algoritmos fazem bastante melhor, mas o ser humano nunca será dispensável como processador final da informação e personalização dos cuidados. Contudo, não podemos rejeitar estas ajudas, desde as ferramentas de leitura e processamento de dados epidemiológicos, o apoio a registos clínicos de consulta, o reconhecimento de padrões imagiológicos de determinadas lesões, deteção de alterações analíticas por comparação, listagem de diagnósticos diferenciais para ajudar com uma lista de sinais e sintomas. A tecnologia não veio substituir o médico: veio libertá-lo da burocracia.

Há muito para crescer, há muito ainda para trabalhar, mas com a linha dorsal definida que só será substituído por uma máquina quem não conseguir trazer o seu valor acrescentado: a relação entre o médico e o doente, a relação entre o profissional de saúde e o doente.

Talvez pensemos em tecnologia em saúde como algo só existente nos grandes centros hospitalares e de investigação, mas ela agora surge em casa, nos centros de saúde, nas pequenas clinicas.

Esta reviravolta na reabilitação é apenas o início. Abre as portas à expansão da teleconsulta, da telemonitorização e da unificação da informação clínica.

Discute-se muito se a tecnologia nos vai afastar, mas a realidade da telessaúde mostra o oposto. Quando as ferramentas digitais são usadas para encurtar distâncias e simplificar a vida, a tecnologia não nos está a isolar. Está a cuidar.

Que este passo seja o primeiro de muitos: não para retirar o 'toque' humano, mas para nos dar a liberdade de ouvir mais, chegar a mais pessoas e garantir que ninguém fica para trás.

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