A inovação não requer histórico, requer convicção

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Num setor como o capital de risco, onde a reputação e o histórico pesam tanto nas decisões de investimento, é compreensível que muitos investidores institucionais privilegiem fundos com vários ciclos já concluídos. A experiência acumulada transmite segurança e a previsibilidade, ou pelo menos a perceção dela, continua a ser um critério decisivo quando se aloca capital a uma classe de ativos que, por definição, é arriscada. Ainda assim, essa preferência, embora intuitiva, nem sempre corresponde à realidade do que gera melhores oportunidades.

O desempenho no venture capital não segue uma lógica linear. O sucesso passado, apesar de relevante, não garante a repetição de resultados, sobretudo num mercado em que as condições tecnológicas, económicas e competitivas se transformam rapidamente. Equipas que tiveram acesso privilegiado a determinadas oportunidades num ciclo podem encontrar um contexto completamente diferente no seguinte. Ao mesmo tempo, novos gestores surgem frequentemente com teses mais ajustadas ao momento, redes mais próximas de novos empreendedores e uma capacidade de execução moldada por uma realidade mais recente.

É aqui que os emerging managers assumem um papel que nem sempre é plenamente reconhecido. Um primeiro fundo é, muitas vezes, construído com um nível de foco e disciplina difícil de replicar em estruturas maiores. A dimensão mais reduzida obriga a escolhas criteriosas; o alinhamento de incentivos é, por regra, mais direto; e a necessidade de provar valor cria uma cultura de exigência que se reflete na forma como as oportunidades são analisadas e acompanhadas.

Há também um elemento humano que raramente aparece nas métricas, mas que pesa no acesso ao dealflow. Muitos destes gestores ainda estão muito próximos dos ecossistemas em que operam. Não dependem apenas de notoriedade ou de processos formais para originar investimento, mas sim de relações, de presença constante e de credibilidade construída em comunidades específicas. Essa proximidade permite, em muitos casos, identificar talento e projetos antes de se tornarem consensuais, e é precisamente nesse momento que o potencial de criação de valor é maior.

Por outro lado, o próprio funcionamento do capital de risco depende da renovação. Sem novas equipas gestoras, novas teses e novas abordagens, o setor tenderia a concentrar capital em cada vez menos mãos e em estratégias progressivamente mais homogéneas. A inovação, que é o objeto do investimento, exige também inovação do lado de quem investe. São os emerging managers que contribuem para essa diversidade, explorando setores ainda pouco financiados, geografias fora dos principais polos e modelos de negócio que ainda não foram amplamente validados.

Apesar disso, continua a existir um desfasamento entre a relevância destes gestores para o ecossistema e a facilidade com que conseguem captar capital. Parte dessa dificuldade é estrutural. Para um investidor institucional, o risco de investir num fundo sem histórico é visível e fácil de explicar; já o risco de não investir — de perder acesso a uma nova geração de gestores que poderá liderar o mercado nos próximos anos — é mais difuso, mais difícil de medir e, por isso, menos discutido.

Este é, em certa medida, o paradoxo. Ao privilegiar apenas fundos consolidados, muitos investidores acabam por entrar em veículos de maior dimensão, com mais concorrência pelas melhores oportunidades e menor flexibilidade para investir em fases iniciais. O conforto da marca pode, inadvertidamente, reduzir o potencial de retorno.

Num momento em que o capital de risco atravessa um período de maior disciplina e seletividade, estas dinâmicas tornam-se ainda mais evidentes. Mercados menos exuberantes tendem a favorecer investidores focados, ágeis e com forte convicção nas suas teses; tudo características que, não por acaso, são frequentemente associadas a gestores emergentes. Equipas mais pequenas adaptam-se mais rapidamente, tomam decisões com menos inércia e conseguem manter uma proximidade maior com fundadores e equipas operacionais.

A longo prazo, apoiar emerging managers não é apenas uma decisão de portefólio; é uma escolha que influencia a vitalidade de todo o ecossistema. São estes gestores que testam novas ideias, que desafiam consensos e que, muitas vezes, descobrem as empresas que virão a definir a próxima década. Ignorá-los não elimina o risco, apenas o desloca. E, num setor onde o valor é frequentemente criado antes de ser visível, essa pode ser uma diferença decisiva.

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