Há momentos em que a política escolhe as pessoas. Este é um deles. O país tem a habitação na rua, o custo de vida na mesa e um Orçamento na Assembleia. E tem um Governo que olha para tudo isto como quem olha para a chuva: com paciência, com prudência, com a certeza de que há de passar.
Não passa.
As rendas sobem 10% ao ano. As casas sobem mais de 17%ao ano. Os salários sobem 5%. Só isso seria suficiente para trazer intranquilidade e incerteza às famílias. Acresce que os jovens saem de casa perto dos 30 anos, ao contrário de outros jovens europeus que conseguem ganhar autonomia perto dos 26 ou mesmo mais cedo.
Portugal não está em crise. Está em paralisia. É pior. E é neste cenário que José Luís Carneiro fez, em poucos dias, três coisas que vale a pena sublinhar.
A primeira é a estabilidade. Carneiro decidiu viabilizar o Orçamento e manteve a decisão contra muita gente, dentro e fora do seu partido. Chamou-lhe "um mau Orçamento" e abster-se-á na mesma. Há quem veja nisso fraqueza. Eu vejo o contrário. Depois de três eleições em quatro anos, derrubar um Orçamento seria oferecer ao país mais uma crise, a oportunidade para Montenegro se vitimizar – e não para governar – e, a André Ventura, mais um palco.
Em boa verdade, Portugal não aguenta uma nova paragem. Carneiro percebeu-o e sustentou a posição quando era mais fácil ceder. Em política, manter o rumo com a bancada a pedir sangue é um ato de coragem, não de conformismo. A estabilidade não é um fim em si, mas todos sabemos que sem ela nada do resto é possível.
A segunda é a habitação. Durante anos, o PS falou do problema como quem fala de um fenómeno natural. Governou oito anos, e a crise não nasceu em 2026. O Mais Habitação foi circunstancial, como o próprio partido hoje admite. Carneiro fez o que raramente se faz em Portugal: reconheceu que nem tudo foi perfeito e, em vez de se desculpar, virou o jogo.
Pôs em cima da mesa propostas concretas.
Um regime excecional de três anos para colocar casas no mercado. Contratos de arrendamento de cinco anos com rendas tributadas a 5%. Isenção de mais-valias na venda de casas até 300 mil euros para habitação própria. Baixar o teto das rendas moderadas. Pode discordar-se de cada uma das propostas, mas são propostas sérias, exequíveis e discutíveis, que é o que um país paralisado mais precisa. E chegam num momento em que Luís Montenegro está em paradeiro incerto: presente nos comunicados, longe das ruas, ausente das decisões.
Quem apresenta propostas ocupa o espaço de quem não as tem. É assim que se lidera a partir da oposição.
A terceira é a mais importante e a menos comentada: a garantia pública. A ideia é simples e muda tudo. O Estado garante ao senhorio o pagamento da renda em caso de incumprimento do inquilino, em troca de contratos longos e rendas moderadas.
Ataca o problema pela raiz.
Os proprietários não tiram casas do mercado por maldade. Tiram-nas por medo: medo de não receber, medo de não conseguir despejar, medo de um tribunal que demora anos. A garantia pública retira o medo da equação. Quem tem uma casa fechada passa a ter razões para a abrir. Quem procura casa passa a ter cinco anos de estabilidade. E o Estado, em vez de construir o que não consegue construir, usa a sua assinatura para desbloquear o que já existe.
Tem riscos. Custa dinheiro, exige regras apertadas para evitar abusos e um sistema de despejo rápido para os casos de má-fé. Mas é a primeira proposta em muitos anos que trata senhorios e inquilinos como parte da mesma solução, e não como inimigos ou mesmo como partes antagónicas.
Há quem lhe peça que vá para a rua. Seria um erro: a rua tem razões, mas não tem programa. Há quem lhe peça que fique quieto, porque a moderação é o seu capital. É o conselho mais perigoso que pode receber. A moderação que não arrisca não é moderação. É inércia com boas maneiras. E o país já tem inércia que chegue do lado de quem governa.
Há momentos em que a política sem risco não tem piada. Nem serve para nada. Este é um deles.
O desafio de Carneiro não é derrubar o Governo. É quebrar o estado de paralisação em que o país se habituou a viver. Estabilidade, propostas e uma ideia nova. Uma ideia alternativa de país.
Não é pouco. É tudo.