Quando, em 1915, Sigmund Freud escreveu as suas Considerações Actuais Sobre a Guerra e a Morte, confessou, antes de tudo, uma desilusão. Acreditara — como tantos europeus cultos do seu tempo — que o progresso técnico e científico, a sofisticação das artes e das instituições, teriam erguido um dique suficientemente sólido contra a barbárie. A Primeira Guerra Mundial mostrou-lhe o contrário: a civilização é uma película fina, um verniz que estala sob pressão.Um século depois, o verniz não só continua frágil, como se tornou translúcido. A guerra já não irrompe apenas nos campos de batalha: instala-se nos ecrãs, infiltra-se nos telemóveis, entra pelas salas de estar. Se a Guerra do Vietname foi designada como a “primeira guerra televisiva”, foi a Guerra do Iraque que se impôs como a primeira guerra, verdadeiramente, em directo, transmitida 24 horas por dia, com grafismos espectaculares e comentadores permanentes. A guerra passou a ter banda sonora, breaking news e partilhas em tempo real.Hoje, a experiência intensificou-se. Redes sociais, transmissões instantâneas, imagens cruas, testemunhos fragmentários: a guerra é vivida à distância, mas sentida como se estivesse ao virar da esquina. O paradoxo é este: quanto mais longe estamos, geograficamente, do conflito, mais próximos nos sentimos, do ponto de vista afectivo — e, ao mesmo tempo, mais impotentes.A Psicanálise oferece uma chave para compreender este fenómeno Freud introduziu a noção de dualismo pulsional: Eros, a pulsão de vida, e Tanatos, a pulsão de morte.A guerra não é um acidente da História; é uma das expressões possíveis da tensão estrutural entre estas duas forças. Em 1933, na sua correspondência com Einstein, escreveu: “Se o desejo de aderir à guerra é um efeito do instinto destrutivo, a recomendação mais evidente será contrapor-lhe o seu antagonista, Eros.”Não se trata de ingenuidade pacifista, mas de lucidez: a única força capaz de conter a destrutividade é o reforço dos laços, das identificações, do trabalho de cultura.O que acontece, então, quando a guerra se transforma em espectáculo permanente?A exposição contínua às imagens de violência activa em nós mecanismos de defesa primitivos. A negação — “isto não é real--- não pode ser!”; a clivagem — “há bons absolutos e maus absolutos”; a projecção — “a crueldade pertence apenas ao Outro”; a identificação maciça com um dos lados do conflito.Oscilamos entre a hiperexcitação e a anestesia. Entre o pânico e a indiferença. Entre a compulsão de ver e a necessidade de desligar.O inconsciente, recordava Freud, é atemporal. Não distingue claramente passado de presente, longe de perto. A imagem repetida da explosão, do corpo mutilado, da criança em fuga, não é metabolizada como simples informação: inscreve-se como traço.A guerra mediatizada torna-se, assim, uma experiência psíquica directa, ainda que não vivida no terreno. O trauma deixa de ser exclusivo dos combatentes, ou das populações atingidas; disseminando-se sob a forma de angústia difusa, medo do futuro, sensação de colapso iminente.Mas há outro efeito, talvez mais inquietante: a banalização.Quando tudo é transmitido, tudo corre o risco de se tornar consumível. A repetição contínua pode dessensibilizar. A morte transforma-se em número; a devastação, em imagem que deslizamos com o polegar. Aquilo que deveria convocar o luto converte-se em fluxo informativo. A guerra passa a coexistir com anúncios, entretenimento, comentários ligeiros. A pulsão escopofílica — o desejo de ver — mistura-se com a pulsão destrutiva.É aqui que a reflexão de Jacques Derrida se torna particularmente incisiva. Ao definir a Psicanálise como um “saber sem álibi”, em Estados-da-alma da Psicanálise, lembra-nos que ela se volta para aquilo que a crueldade psíquica tem de mais singular. Não nos permite refugiar na cómoda ideia de que a barbárie pertence apenas ao Outro. Obriga-nos a reconhecer a nossa própria participação, ainda que fantasmática, no desejo de violência.A guerra mediatizada favorece, também, o que Freud designou como “narcisismo das pequenas diferenças”. A agressividade dirige-se não ao absolutamente estranho, mas ao semelhante que ameaça a nossa identidade. As redes amplificam este mecanismo: polarizações, discursos de ódio, simplificações maniqueístas. O conflito externo ecoa nas fracturas internas das sociedades. A guerra longínqua alimenta guerras simbólicas domésticas.Por outro lado, a proximidade virtual pode criar uma ilusão de participação moral que dispensa o acto político. Partilhar uma imagem substitui, por vezes, a reflexão; indignar-se substitui a responsabilidade. A política, enquanto espaço de mediação simbólica, é progressivamente desinvestida, cedendo lugar à reacção imediata. Ora, quando o simbólico falha, a violência encontra caminho directo.Não se trata de defender a ignorância como protecção, nem o news avoidance, fenómeno que tem aumentado nos últimos dez anos, a um ritmo alucinante. O desconhecimento nunca foi antídoto contra a barbárie. Mas é legítimo interrogar o modo como vemos. Que fazemos com o que vemos? Conseguimos transformar a imagem em pensamento, ou limitamo-nos a reagir?A guerra, quando irrompe, desmente sempre a fantasia de progresso linear. Recorda-nos que a civilização não elimina a agressividade; apenas a desloca, a sublima, a contém, provisoriamente. “Tudo o que promove o desenvolvimento da cultura trabalha também contra a guerra”, escreveu Freud. Cultura, aqui, não é ornamento. É trabalho sobre a pulsão. É capacidade de simbolizar a perda, de reconhecer a alteridade, de suportar a ambivalência.Talvez o maior desafio da guerra em directo seja este: preservar a possibilidade de pensar. Ou, como dizia Bion: “A capacidade de pensar os pensamentos.” Não ceder, nem à excitação destrutiva, nem à anestesia. Não reduzir o conflito a espectáculo, nem o sofrimento a estatística. Sustentar o desconforto de saber que a violência não é exterior à condição humana.A paz absoluta é uma impossibilidade estrutural. Mas entre a guerra total e a “paz do cemitério” há um espaço frágil — o espaço do político, do simbólico, do laço. Se a pulsão de morte habita cada sujeito e cada comunidade, também a capacidade de ligação, de Eros, nos constitui.A guerra em directo confronta-nos, diariamente, com a nossa própria ambivalência. Podemos transformar essa confrontação em mera excitação voyeurista, ou em trabalho de cultura. Não há garantias. Há, apenas, responsabilidade.Pensar a guerra, mesmo à distância, é já uma forma de não a consumir passivamente. E talvez seja esse, hoje, o primeiro gesto de resistência.A missão ética da PsicanáliseA Psicanálise não é apenas uma teoria clínica, nem um comentário cultural. Ela configura-se como uma posição ética activa perante os fenómenos humanos e a realidade histórica.Enquanto “saber sem álibi”, a Psicanálise recusa a neutralidade cúmplice. A sua ética não consiste em absolver, justificar, ou condenar moralmente, mas em compreender – de forma radical - os mecanismos inconscientes que estruturam o ódio, a violência, a identificação colectiva e a adesão à destrutividade. Trata-se de sustentar o pensamento, precisamente, onde ele é mais difícil: diante da crueldade, da perversão, da barbárie.Pensar a perversão, neste enquadramento, não significa reduzi-la a uma categoria clínica circunscrita, nem a um rótulo político aplicado ao adversário. Significa reconhecê-la como modo de relação com o Outro, caracterizado pela recusa da alteridade, pela instrumentalização do semelhante e pela negação da responsabilidade subjectiva. A perversão, enquanto estrutura relacional, não está apenas “fora”, nos regimes ou nas ideologias; pode instalar-se nos discursos, nas instituições, nas massas — e em cada sujeito.É neste ponto que a Psicanálise é convocada como ética: exige de cada um de nós uma responsabilidade não cúmplice, tanto no espaço público como no foro íntimo. Não basta denunciar a violência externa; é necessário interrogar as formas subtis de gozo destrutivo, de indiferença, ou de desumanização, que atravessam o laço social. Sustentar a possibilidade democrática implica reconhecer esta dimensão e não a projectar, exclusivamente, no inimigo.A democracia não se mantém apenas por dispositivos jurídicos ou equilíbrios institucionais. Depende, também, da capacidade de cada sujeito suportar a diferença, tolerar a frustração, simbolizar a perda e renunciar à omnipotência. Ora, esse trabalho é, no sentido mais profundo, um trabalho psíquico.Assim, a missão ética da psicanálise consiste em manter aberto o espaço do pensamento, impedir a simplificação maniqueísta e recusar a desresponsabilização colectiva. Não oferece garantias de redenção; oferece, antes, uma prática de lucidez. E essa lucidez — exercida dentro e fora de si — é condição indispensável para que o laço democrático não resvale para formas perversas de relação, onde o Outro deixa de ser reconhecido como sujeito e passa a ser tratado como objecto descartável.Neste sentido, compreender é já um acto político.E não ser cúmplice começa por não abdicar de pensar. Escreve ao abrigo do Antigo Acordo Ortográfico