A Europa e a América depois das eleições

Jan Zielonka

Professor de Política e Relações Internacionais na Universidade de Veneza, Ca' Foscari, e na Universidade de Oxford

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Os eleitores americanos humilharam Donald Trump. Por isso, em muitas capitais europeias, vão saltar rolhas de champanhe. Irão agora as relações transatlânticas sofrer uma mudança profunda? O Presidente Trump vai continuar a conduzir a política externa com uma influência apenas limitada do Congresso recém-eleito. Deixará Trump de apoiar a extrema-direita na Europa depois das eleições? Passará a apoiar Zelensky em vez de Putin? Levantará as tarifas impostas às importações europeias? Duvido.

É claro que os protegidos europeus de Donald Trump na extrema-direita vão ver o seu patrono ferido. Mas os seus resultados eleitorais dependerão sobretudo de fatores internos, como a insegurança económica, a perceção da imigração ou o cansaço democrático.

Além disso, as motivações dos eleitores americanos nestas eleições nada tiveram que ver com a política de Trump para a Europa. Uns estavam furiosos com o preço da gasolina e a inflação rastejante, outros opunham-se à intervenção falhada no Irão, e outros ainda estavam preocupados com o futuro da democracia americana.

Do ponto de vista europeu, a política de Trump em relação à Rússia, à Ucrânia e à União Europeia pode ser míope e até imoral, mas traz, ao mesmo tempo, benefícios concretos à América: permite aos Estados Unidos lucrar com a guerra na Ucrânia, manter os aliados na linha e evitar envolver tropas americanas em problemas muito distantes das preocupações quotidianas dos eleitores da Florida ou do Texas.

Também não há qualquer garantia de que estejamos a assistir ao fim de Trump. O movimento MAGA pode estar enfraquecido, mas está longe de derrotado. Além disso, uma vitória democrata nas próximas eleições não anunciaria necessariamente um recomeço nas relações transatlânticas. Até o querido da Europa, Barack Obama, considerava a China, e não a Europa, a prioridade estratégica da América. Promoveu as empresas americanas na concorrência com as europeias e esperava que os aliados assumissem uma parte maior dos custos da liderança americana.

Joe Biden não tinha ilusões sobre as intenções de Putin, mas partilhará a nova geração de democratas americanos o seu compromisso com a NATO? E mostrará uma determinação igualmente forte em investir numa Ucrânia independente?

Trump tornou-se um álibi conveniente para a Europa justificar a sua própria impotência. Afinal, quem poderia esperar que a América começasse a confraternizar com Moscovo em vez de Bruxelas? O problema é que as sucessivas Administrações em Washington sempre se opuseram a qualquer redução do seu domínio militar e económico na Europa democrática, e travaram todas as tentativas europeias sérias de afirmar maior independência. É por isso que o pilar europeu de Defesa dentro da NATO nunca ganhou forma concreta.

Assim, em vez de se lamentar por causa de Trump, a Europa deve finalmente assumir a responsabilidade pelo seu próprio destino. Precisa de unidade política, de modernização económica e de capacidades de Defesa reais. Porque as maiores ameaças à Europa não vêm de Trump, mas do nacionalismo, da estagnação tecnológica, da erosão da democracia e, claro, de Putin.