Soares dos Reis: a grandeza de um escultor e os desafios da memória artística nacional

Patrícia Reis

Jornalista e escritora

Publicado a: 

Há artistas cuja consagração histórica parece dispensar qualquer justificação, mas cujo legado permanece, paradoxalmente, aquém do reconhecimento público que a sua obra merece. António Soares dos Reis, figura cimeira da escultura portuguesa de Oitocentos, é um desses casos. O 180.º aniversário do seu nascimento, que o Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto, assinalará em 2027, com um programa comemorativo que se prolongará até 2028, oferece, por isso, mais do que uma ocasião celebrativa: impõe uma reflexão sobre a preservação, o estudo e a projecção do património artístico português.

Nascido em Santo Ovídio, Vila Nova de Gaia, a 14 de Outubro de 1847, Soares dos Reis pertence a uma geração que procurou afirmar a escultura nacional num horizonte estético marcado pela aprendizagem académica, pela circulação internacional de modelos e pela tensão entre idealização clássica e expressão individual. A sua formação em Portugal, Paris e Roma foi decisiva para a maturação de uma linguagem plástica que alia o domínio técnico à profundidade psicológica, conferindo à figura humana uma intensidade que ultrapassa a mera representação formal.

O Desterrado, realizado em 1872, constitui o testemunho maior dessa capacidade. Longe de se esgotar na excelência anatómica ou na depuração compositiva, a obra inscreve na matéria escultórica uma inquietação existencial de rara eloquência. A figura, recolhida sobre si mesma, corporiza a experiência da solidão e do desenraizamento, convertendo o mármore num veículo de introspecção. É precisamente nesta conjugação entre rigor formal e densidade espiritual que reside parte substancial da modernidade de Soares dos Reis. Também Flor Agreste revela a amplitude da sua sensibilidade artística e a sua capacidade de conferir singularidade expressiva à representação.

A iniciativa agora anunciada reúne o Museu Nacional Soares dos Reis, o Círculo Dr. José de Figueiredo, os municípios do Porto e de Vila Nova de Gaia e a Universidade do Porto, através das Faculdades de Belas-Artes e de Letras. Esta convergência institucional é particularmente pertinente, mas o seu verdadeiro alcance dependerá da capacidade de transformar a comemoração em conhecimento duradouro, investigação consequente e efectiva aproximação a novos públicos.

Comemorar um escultor desta dimensão não pode significar apenas reiterar a sua consagração. Exige contextualizar a sua obra, aprofundar o estudo da sua produção e interrogar a posição que ocupa na narrativa da arte portuguesa. Num país tantas vezes mais expedito a proclamar a riqueza do seu património do que a assegurar a sua divulgação e inteligibilidade, esta efeméride constitui uma oportunidade que não deve ser desperdiçada.

Honrar Soares dos Reis é, em última análise, reconhecer que a grandeza artística não se preserva por simples inércia comemorativa: exige instituições activas, investigação rigorosa e uma cultura capaz de transmitir às gerações futuras a consciência crítica da sua própria herança.

Diário de Notícias
www.dn.pt