Quarenta e seis anos depois da sua morte, Snu Abecassis passou a dar nome a uma rua de Lisboa, numa homenagem que reuniu familiares, amigos e figuras da vida política para celebrar a mulher que ajudou a transformar a vida cultural portuguesa e a desafiar a censura do Estado NovoA nova Rua Snu Abecassis, uma artéria da Freguesia do Lumiar, foi inaugurada pelo presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, na presença do antigo Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, dos três filhos de Snu e de cinco dos seus netos.“Eu tinha apenas 9 anos quando a minha mãe nos deixou e ela tinha apenas 40. Mas durante a sua curta vida conseguiu deixar um legado à família e aos seus descendentes, a maioria aqui presente”, disse a jornalista Rebecca Abecassis, filha da editora.“Coragem, determinação, a luta pelo bem comum e por valores muito sólidos, e ainda, não menos importante, a luta pela democracia. Penso que foi esse o seu principal legado.”Nascida em Copenhaga, em 1940, como Ebba Merete Seidenfaden, Snu conheceu Vasco Abecassis quando ambos estudavam num colégio interno na Inglaterra. Casaram-se e mudaram-se para Lisboa em 1961. Quatro anos mais tarde fundariam a Publicações Dom Quixote. Rapidamente se tornou um dos principais focos de resistência cultural ao regime, publicando obras frequentemente censuradas e autores então pouco conhecidos em Portugal como clássicos russos, e Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Gabriel Garcia Marquez.Desafiando as regras da censura, tornou-se presença frequente na PIDE, onde era chamada a prestar declarações pelas atividades da Dom Quixote.“Não nasceu em Portugal, mas com ela Portugal renasceu de certo modo”, afirmou Carlos Moedas.Moedas descreveu Snu como uma mulher independente e cosmopolita que teve a coragem de desafiar os costumes, de pensar livremente durante a ditadura e de acreditar em Portugal.Recordou ainda que manteve para toda a vida a alcunha que lhe foi dada pelo pai, “Snu”, que em dinamarquês significa “esperta”.“Escolher quem queremos ser é sempre o primeiro ato de liberdade”, defendeu Moedas.. Convidado por Moedas a falar como amigo de Snu, Marcelo Rebelo de Sousa fez um retrato mais pessoal da editora, que conheceu quando ele tinha 19 anos.“Era um Portugal ainda cinzento, a preto e branco”, disse, lembrando o país que encontrou antes de conhecer Snu.Segundo Marcelo, foi ela quem trouxe “a cor e a luz” a um Portugal ainda fechado sobre si próprio.Identificando-a como uma “rebeldemente pioneira”, Marcelo afirmou que Snu “fundou a democracia antes de ela ser fundada”, ao promover a liberdade de pensamento.Disse ainda que o regime nunca soube lidar com uma mulher que respondia à censura voltando simplesmente a publicar os livros apreendidos.Sempre que uma obra era proibida, Snu encontrava uma forma de a fazer regressar às livrarias.Marcelo recordou igualmente que Snu incomodava não apenas o regime, mas também parte da oposição, precisamente porque recusava enquadrar-se em qualquer ortodoxia política.A relação de Snu com Francisco Sá Carneiro acabaria por fazer dela uma das figuras públicas mais conhecidas do país. Impedidos pela legislação do divórcio então em vigor de se casarem, viveram juntos durante vários anos, enfrentando críticas públicas e pressões políticas. Quando Sá Carneiro chegou a primeiro-ministro, Snu tornou-se, na prática, a primeira-dama não-oficial de Portugal.Os dois morreram juntos no desastre de Camarate, a 4 de dezembro de 1980, quando seguiam para um comício no Porto. Também morreram o ministro da Defesa, Adelino Amaro da Costa, a sua mulher e os restantes ocupantes do avião. As circunstâncias da queda continuam, décadas depois, a alimentar dúvidas e controvérsia.