A relação entre o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e o setor privado de saúde em Portugal é historicamente complexa.Do ponto de vista dos defensores mais aguerridos do SNS, uma estrutura projetada e construída para desempenhar uma missão universalista e tendencialmente gratuita, a existência de privados na Saúde motivou desconfiança, ceticismo e, consoante o quadrante político de onde provêm os seus críticos, até uma certa repugnância. O discurso anti-privados na Saúde passou por vários argumentos. O primeiro era o de que as primeiras PPP na Saúde (criadas pelos governos PS de Guterres e José Sócrates) eram uma espécie de pontas-de-lança para a privatização de todo o sistema. Mas também que era a facE visível de um mal maior: a diferenciação entre um serviço para os ricos e outro para os pobres. Evoluiu para a ideia de que o SNS era o melhor serviço médico em Portugal, ponto final parágrafo, e que os privados existiam para tarefas menores e sobretaxadas. Agora estamos numa nova fase: os privados roubam médicos e outros recursos humanos ao SNS, sendo, assim, a causa do mau funcionamento do sistema nacional de saúde, que é excelente por definição. Em 2026 – depois de termos visto como Marta Temido ignorou um terço das camas em Portugal nos momentos mais críticos da Covid – arrisco a dizer que os privados são estruturais para o funcionamento do sistema. Os privados sempre coexistiram com o SNS como complemento e, em momentos de pressão, como válvula de escape para garantir acesso. O que aconteceu é que os momentos de pressão evoluíram de esporádicos para semi-permanentes. E isto por força de três dinâmicas: envelhecimento demográfico em Portugal, maior prevalência de doenças crónicas e constrangimentos financeiros e de recursos humanos no SNS. Os últimos dados do INE sobre a população tornam oficial um outro: o acréscimo de cerca de 1,6 milhões de cidadãos estrangeiros que residem atualmente no nosso país. A nossa economia precisa deles, como é óbvio, mas o número torna evidente que a estrutura pública não está montada para este volume.Os cidadãos que residem em Portugal têm, de facto, acesso a excelentes serviços médicos no SNS. Excelentes profissionais, dos enfermeiros aos médicos, infraestruturas de topo, competência internacionalmente reconhecida em cirurgias de elevada complexidade. Mas tudo isso com um asterisco. Quando conseguem ser atendidos; quando conseguem uma consulta; quando o tempo de espera para uma intervenção não é superior ao desenlace do problema médico em si.Esta última dinâmica levou ao recurso exponencial a seguros e planos de saúde. É melhor ter um serviço pior em tempo útil do que esperar uma eternidade pelo melhor serviço que há. Isso não quer dizer que os privados não sintam constrangimentos idênticos ao SNS. As unidades privadas até podem estar a pagar melhor por menos horas de trabalho, mas também estão a sentir dificuldades para contratar médicos e, sim, já têm listas de espera que, em algumas especialidades, começam a ser preocupantes. Este cenário só reforça a ideia de que o caminho terá de ser a cooperação entre os dois sistemas. Uma complementaridade regulada pelo Estado em que o SNS se concentra na missão pública e universal e o privado oferece capacidade e flexibilidade, mas enquadrado por regras transparentes. Com planeamento e métricas de resultados aplicadas à qualidade e à eficiência, a relação entre o SNS e o sistema privado na Saúde pode evoluir de uma resposta a falhas conjunturais para uma parceria que fortaleça o sistema como um todo, proteja a equidade e aumente a resiliência perante choques futuros.