Síndrome do Coração Partido

Zeynep Tinaz Redmont

Jornalista turca a viver em Portugal, publica 'Lisbon Diaries' no Substack

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"Nada é pior do que dizer adeus. É um pouco como morrer.”

Foi isto que a franco-iraniana Marjane Satrapi escreveu no seu aclamado livro de memórias Persepolis.

A sua família afirmou que ela morreu de desgosto. Durante o último ano, vivia de luto pela morte do marido, o produtor sueco Mattias Ripa.

Os cientistas têm um nome para este fenómeno: “síndrome do coração partido”.

“No dia em que uma pessoa amada morre, a probabilidade de sofrer um ataque cardíaco é 21 vezes maior do que em qualquer outro dia da sua vida”, afirma Mary-Frances O’Connor, numa entrevista ao podcast Big Brains da Universidade de Chicago.

O’Connor, que dirige o Laboratório de Luto, Perda e Stress Social da Universidade do Arizona, afirma que um homem tem quase o dobro da probabilidade de morrer de ataque cardíaco nos primeiros três meses após a morte da esposa, em comparação com um homem casado cuja companheira continua viva.

O mesmo tema é explorado por Siri Hustvedt, viúva do falecido escritor Paul Auster, que verteu a sua dor em Fantasmas, recentemente publicado em português.

Ela cita o filósofo francês Merleau-Ponty, definindo o luto “como uma amputação que gera um membro fantasma”.

“A parte do corpo desapareceu, mas permanece nas sensações da pessoa, uma espécie de alucinação sensorial da parte em falta”, escreve.

A experiência de luto de Hustvedt é avassaladora.

Ela tem dificuldade em respirar, sofre de palpitações, sente dores entre as costelas, experimenta sensações semelhantes a descargas elétricas a percorrer o corpo e fantasia ter desenvolvido um tumor que espelha aquele que cresceu nos pulmões do marido.

Acaba por procurar ajuda de um psiquiatra-psicanalista depois de escorregar numa banheira, ainda com as meias calçadas.

O título do livro justifica-se porque ela relata experiências alucinatórias de convivência com o fantasma do marido.

Sente a presença do marido falecido no quarto no dia do funeral e descreve a alucinação de sentir o cheiro do fumo dos seus charutos até no jardim.

Quando esta despedida eterna vem de alguém amado, o parceiro que fica está condenado a sentir para sempre a falta da outra metade do corpo, da alma e da mente.

Hustvedt, que esteve recentemente em Lisboa e disse perante uma plateia cheia dos seus leitores: “Amarei este homem até ao fim da minha vida”, concentra-se na sua carreira de escritora, embora o seu melhor editor, Auster, já não esteja presente.

Para Satrapi, cuja novela gráfica Persepolis retrata a queda do Xá e a rápida transformação do Irão pelos mulás num regime baseado na sharia, a escolha foi diferente.

As suas últimas publicações no Instagram, poucos dias antes da sua morte, estavam cuidadosamente divididas, separadas em entradas consecutivas, cada uma exibindo uma única palavra impressa a rosa sobre fundo preto:

“Porque perdi o amor da minha vida.”

Aparentemente quer dizer:

“…e assim chega também o fim da minha vida.”

Uma despedida.

Ela deve ter escolhido a cor rosa deliberadamente.

Afinal, não é essa a cor do amor?

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