‘Silly season’

João Caupers

Antigo presidente do Tribunal Constitucional e subscritor do 'Manifesto 50+50 pela Reforma da Justiça'

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Não me recordo de ter alguma vez tropeçado na palavra galera, pelo menos no português de Portugal. No português do Brasil, sim, a palavra é de uso corrente, com o sentido de turma ou pessoal, por vezes de claque ou torcida. Também se admite que a palavra, ao que parece, de origem catalã, possa ser sinónimo de galé, outrora uma embarcação comprida movida a remos, manobrados por escravos, criminosos condenados ou inimigos feitos prisioneiros.

A galera que passou a fazer parte do nosso quotidiano mediático é outra coisa, bem distinta. Desde logo, por ter rodas e se deslocar em terra. Mais importante, porque se trata de um veículo sem qualquer meio de propulsão próprio: para se deslocar, tem de ser rebocado. Ou atrelado a um veículo motorizado, o trator. Daí os dicionários portugueses considerarem as palavras galera e atrelado sinónimos.

Desapareceu – ou esteve desaparecida – uma galera. Carregada, diz-se, com acetona e outros dissolventes destinados à produção de substâncias proibidas e apreendida no âmbito de um processo judicial, galera essa que se encontrava à guarda da polícia judiciária. Reapareceu a centenas de quilómetros do último lugar em que foi vista. A manobra de a ir buscar, atrelar a um trator e retirá-la do local não terá sido testemunhada por ninguém, tal foi a discrição. Discute-se o eventual envolvimento no caso de um membro do atual governo – ao tempo responsável máximo daquela polícia.

O protagonismo assumido pela galera não surpreende. Nesta época escasseiam no país notícias importantes. E há limites para consumir mais papel e ocupar mais tempo de antena com o inextricável folhetim dos exames do ensino secundário.

A galera não está, de resto, sozinha. Na mesma situação está um suporte informático de dados, vulgo pen, subtraído do gabinete de um deputado na sede da nossa democracia. Papelada a cobrir o chão, alguns cacos e mais um desaparecido: a pen.

A pen conteria informação desfavorável ao ministro já referido. Ou não conteria. Ou não existiria sequer, tudo não tendo passado de uma estória (não história) inventada por um partido da oposição, que nutriria um ódio de morte pelo tal ministro, desde que este, nas anteriores funções policiais, tinha recusado estabelecer uma conexão entre um suposto aumento da criminalidade e a imigração estrangeira, culpada de todos nossos problemas pelo mesmo partido.

As estórias dos dois desaparecimentos – um já passado, outro talvez ficcionado – cruzam-se assim, numa tragédia para a democracia, para uns, numa mal encenada comédia de verão, para outros.

Quando chegar a hora de pôr termo ao enredo, talvez se descubra que a pen fora escondida na galera e lamentavelmente destruída pelo fogo, juntamente com os produtos químicos nela transportados. Seguramente por deficiente execução da ordem de destruição, estes foram incendiados ainda dentro da galera, com os lamentáveis resultados que se adivinham.

Fim da pen, da galera e, um dia destes, do verão.

Diário de Notícias
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