Setúbal, mar de culturas

Luís Castro Mendes

Embaixador jubilado e escritor

Publicado a

Homme libre,

toujours tu chériras la mer

Baudelaire

A originalidade de Setúbal está no permanente confronto entre a paisagem bucólica e tranquila da Serra da Arrábida, que ecoa nos versos de Frei Agostinho da Cruz ou de Sebastião da Gama, e o perfil dramático da sua costa de altas falésias e belíssimos recantos de praias esplendorosas. Está no mar, que acolhe a faina arriscada dos pescadores como a circulação das riquezas pelo porto. E é ao povo desta terra, agrícola e piscatória, mas também industrial, de trabalho duro, ao lado de vilegiaturas amenas, que se dirige o ambicioso projeto que esta cidade tem vindo a construir, de candidatura a Capital Portuguesa da Cultura 2028, processo exemplar de participação criativa e diálogo permanente com as diferentes comunidades de que se faz este espaço único.

Em contraposição ao poeta e monge camponês Frei Agostinho da Cruz, virado para as coisas intemporais da terra e do Céu, a abertura de Setúbal para o mar, com todas as suas promessas e todos os seus perigos, está bem presente em Bocage, esse Elmano Sadino que hoje é referência e inspiração na aventura de juntar todas as vozes, distintas e peculiares, das diferentes comunidades setubalenses numa rede de cultura, tecida para criar raízes no tempo, para além de 2028. E vive em Bocage também o apelo à liberdade, nesse seu tempo de guerra com as forças do despotismo, uma guerra que é afinal de todos os tempos, ontem como hoje. Ouçamo-lo:

Sanhudo, inexorável Despotismo

Monstro que em pranto, em sangue a fúria cevas

Que em mil quadros horríficos te elevas

Obra da Iniquidade e do Ateísmo

Assanhas o danado Fanatismo,

Por que te escore o trino onde te elevas;

Por que o sol da verdade envolva em trevas

E sepulte a Razão num denso abismo.

Porque outro e oposto é o seu apelo, o apelo à liberdade:

Liberdade, onde estás? Quem te demora?

Quem faz que o teu influxo em nós não caia?

Porque (triste de mim) porque não raia

Já, na esfera de Lísia a tua aurora?

Perseguido pelas suas ideias, censurado pelos seus devaneios amorosos, Bocage conhece o exílio em terras de Goa e esta coincidência biográfica fá-lo invocar Camões:

Camões, grande Camões, quão semelhante

Acho teu fado ao meu, quando os cotejo

Longe da serenidade rural que se espraia nos versos de Frei Agostinho da Cruz, este poeta Bocage, que arrostou os mares e as prisões, representa bem o lado aventureiro e livre, virado para os mares e para os seus riscos, para a coragem e para o sacrifício, que estão presentes na identidade de Setúbal. Recordemos os trabalhadores mais humildes e sacrificados, mas também mais audazes e criadores, que se fizeram aos mares a partir de Setúbal. Recordemos os homens e mulheres que construíram a indústria conserveira, que hoje podemos admirar no Museu do Trabalho. Não esqueçamos os agricultores, que fizeram das terras de Azeitão berço privilegiado de culturas e vinhas.

Setúbal pediu a palavra. É uma cidade viva e rica de trabalhos e de culturas. É uma cidade virada para o mar e para a liberdade. A sua candidatura veio consolidar um trabalho profundo de inclusão e de partilha com as forças culturais e com as comunidades setubalenses. Foi o que senti nesta breve visita que lhes fiz.

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